Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Renato Nalini: Mastodontes têm vida curta

JOSÉ RENATO NALINI | 13/06/2019 | 07:30

A Quarta Revolução Industrial promove um turbilhão na vida humana, que poucos ainda são os que conseguem imaginá-lo. É bom estar antenado para não perder o contato com a realidade fugaz, perseguida pela obsolescência, que torna tudo descartável, com uma rapidez incrível.

Um bom exercício é acompanhar o desenvolvimento de algumas instituições que foram alvo de profundas mutações no decorrer do tempo. Uma delas é a empresa, notadamente a indústria. A partir da Revolução Industrial do século 18, adotou-se uma cultura fabril que congregou os trabalhadores em espaço suscetível de pesada vigilância. Fazê-los produzir em série, todos tangidos pelos horários, disciplina rígida e controle severo, multiplicou a capacidade de gerar bens.

Ninguém pensava em satisfazer as expectativas do operário. O negócio dos negócios era exclusivamente o lucro. As jornadas de trabalho se estendiam com o uso da iluminação artificial. Criou-se uma nova escravidão ou, no mínimo, uma nova servidão.
Um livro interessante para recapitular esse período da história da civilização é “Mastodontes: a História da Fábrica e a Construção do Mundo Moderno”, de Joshua B.Freeman, editora Todavia. Ele cita Karl Marx que, em “O Capital” – obra muito citada e pouco lida – afirma: “No artesanato e na manufatura, o operário faz uso da ferramenta; na fábrica, a máquina faz uso dele”.

A indústria sobreviveu, mas, para isso, teve de criar uma infraestrutura física, social e psicológica, tudo em razão do objetivo primordial: o incremento da produção.

Só que as grandes empresas não sobrevivem. Duram uma geração e não mais. É o dinamismo da modernidade que as sacrifica. Vão se tornando obsoletas e dispendiosas. A mentalidade conservadora já não se sustenta. Os tempos são outros. O reconhecimento da mais valia do trabalho em relação à menos valia do capital foi uma inversão de ótica dolorosa para o patrão.
Nem todos os patrões foram utopistas como Robert Owen, na Inglaterra ou Roberto Simonsen, no Brasil, em cuja Cerâmica São Caetano o operário era tratado como gente e merecia um olhar que lhe conferia dignidade. Tanto que foi Roberto Simonsen o criador do SESI, essa instituição à qual a educação e cultura brasileira tanto devem. E que, exatamente por ser bom, merece olhares críticos e uma resistência cruel.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/renato-nalini-mastodontes-tem-vida-curta/
Desenvolvido por CIJUN