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Renato Nalini: Minha Sogra

JOSÉ RENATO NALINI | 25/04/2019 | 07:30

Pouco antes de completar 100 anos, ela faleceu. Seu nome: Heloísa Brant de Carvalho Freitas (1919-2019). Gostava de repetir que deveria se chamar Heloísa Caldeira Brant Bulhões de Carvalho, porque o patronímico de família fora, com o tempo, abreviado. Os Caldeira Brant participaram ativamente da História do Brasil, pois foi Felisberto, o Marquês de Barbacena, o encarregado de encontrar esposa para o jovem Imperador viúvo Pedro I. Missão da qual a descendente se orgulhava, sustentando que a fortuna pessoal custeara o feito exitoso. Neta do professor Itapura de Miranda, mestre da Escola Normal “Caetano de Campos”, era a filha caçula da Professora Regina Miranda Brant de Carvalho e de Raul Brant de Carvalho.
Ao se casar com o médico Francisco Glycério de Freitas Filho, uniu-se a outro tradicional tronco brasileiro, cuja figura de proa foi o republicano Francisco Glycério. O “Pai da República” era sogro de Herculano de Freitas, vulto lendário na ciência jurídica e na política, diretor da Faculdade de Direito da USP e Ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal. Como as linhagens se cruzam, a sogra de Heloísa, a matriarca Helena, vinha dos poderosos Souza Leão e Gracie, que forneceram nomes respeitáveis à diplomacia pátria, como Samuel Gracie e os Lampreia.
Durante décadas se devotou a obras caritativas, elaborando trabalhos manuais de corte e costura, tricô, crochê e bordado, junto com as amigas que liderava, para atender à população carente.
Profundamente religiosa, não declinava de seus deveres de católica praticante. Acompanhava a catequese dos netos e seus famosos Natais sempre tinham início com o canto “Noite Feliz”. Eram antecedidos por laboriosa preparação de bolos natalinos que ofertava a todo o grupo familiar e à enorme roda de amigos. Seus jantares eram requintados. Fazia questão de manter viva a tradição gastronômica de seus ancestrais. Conservou a elegância no trajar, na polidez aristocrática e no vernáculo escorreito.
A viuvez foi um golpe que Heloísa só suportou fugindo gradualmente à realidade. Continuou falante, a declamar em francês, revivendo os tempos de colégio e com excelente memória para o passado remoto. Faleceu no dia 8 de abril, deixando seis filhos, 17 netos e 31 bisnetos, além da irmã Sylvia Brant de Carvalho Parise. Em 19 de setembro completaria cem anos.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, Docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras.

Foto: Divulgação

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