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Renato Nalini: O crime da Maria Fumaça

JOSÉ RENATO NALINI | 18/11/2018 | 07:30

A leitura do livro “Trilhos do Desenvolvimento: As ferrovias no Crescimento da economia brasileira 1854-1913”, do professor da UCLA (Universidade da Califórnia), em Los Angeles, e brasilianista William Summerhill, ratifica nossa certeza quanto à insensatez de quem acabou com as ferrovias no Brasil. Regredimos e muito nesta República tomada por infratores que se profissionalizam na política e extraem de um povo cada vez mais ignorante, o suor de seu trabalho para acumularem fortunas que não conseguirão dilapidar em vida. Mas que seus genros e noras o farão, como é de costume.

Antes do trem, o Brasil transportava suas mercadorias no lombo de mulas. Quando Dom Pedro II inaugurou a Estrada de Ferro Mauá em 1854, o País começou a sair de sua estagnação econômica. Saiu do zero e, em seis décadas, já possuía 24 mil quilômetros de ferrovias. Hoje, mais de um século depois, a malha ferroviária brasileira não ultrapassa 28,2 mil quilômetros, de acordo com a CNI (Confederação Nacional da Indústria). E mais de 30% estão inutilizados.

Houve investimento maciço e a cada ano crescia o caminho de ferro, levando progresso, criando empregos, reduzindo o custo do transporte de carga. Em 1910, foram construídos 2.085 quilômetros, embora a década de 1880 tenha sido a de maior avanço, com 6.575 quilômetros de malha férrea. Em 1895, já eram 15 estados brasileiros servidos por ferrovia.

Foi o primeiro grande negócio brasileiro, que redesenhou os mapas social, econômico e político do país. Fortaleceu-se o empreendedorismo e a organização empresarial. Criou-se uma cultura de ordem, disciplina e trabalho, da qual Jundiaí experimentou o gostinho, pois trabalhar na Companhia Paulista de Estradas de Ferro ou na Santos a Jundiaí, a “Inglesa”, era para uma elite. Elite moral, elite profissional, elite ética.

Tomado por idiotia – aplique-se o benefício da dúvida, para não pensar que houve corrupção ou capitulação ante o lobby da indústria poluente dos combustíveis fósseis e suas máquinas assassinas – o governo acabou com as ferrovias. Nossa cidade, que sediou enorme contingente de ferroviários, hoje não consegue sequer preservar com o apuro necessário aquele testemunho de manifesta evidência: já fomos muito melhores!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, jundiaiense, foi ferroviário da Companhia Paulista de Estradas de Ferro entre 1964 e 1969

Foto: Divulgação

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