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Renato Nalini: O livro resistirá

JOSÉ RENATO NALINI | 25/03/2018 | 06:00

Leio uma notícia preocupante: “A biblioteca sem livros” (O Estado de S.Paulo, 12/02/2018). Narra o abandono de alunos de uma universidade em relação aos livros físicos, em favor das consultas on-line. Por motivo de custo na manutenção das bibliotecas, elas reciclam os livros e descartam as obras que já não merecem visita de interessados.

A Universidade de Indiana, na Pensilvânia (EUA), é uma delas. Como quase metade da coleção ficou sem ser consultada durante vinte anos ou mais, os administradores resolveram assumir a urgência de uma limpeza. Mediante uso do software do grupo Lugg, elaboraram a relação de 170 mil livros que devem ser removidos.

Professores indignaram-se. Mas não conseguem fazer com que seus alunos realmente leiam as obras abandonadas. Parece que nossos dias fazem reviver o pesadelo da destruição da Biblioteca da Alexandria ou a ameaça de queima de livros proibidos por ignorância, fundamentalismo ou perseguição religiosa.

Sempre houve destruição gradual de livros. A história dos antigos juristas é uma sucessão de tragédias para quem respeita e ama os livros. Assim que o magistrado morre, herdeiros se desfazem das coleções. Aquilo que foi amealhado com carinho e até com sacrifício durante décadas vira matéria-prima para sebos, quando tem sorte. Pois nem doação de livros se aceita mais. Tenho episódios dolorosos que contaria se não envolvessem pessoas conhecidas. O maldito dinheiro, a cupidez, a ignorância, a desvalia do saber, aliados a uma situação de escassos recursos financeiros, é o que assassina as bibliotecas.

HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUMEnquanto isso, para gáudio dos que ainda compram livros, há pelo menos uma notícia boa: a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) entregou para a cidade de São Paulo uma biblioteca comunitária, localizada à frente do campus da rua Álvaro Alvim, 123, na Vila Mariana. Espaço com 11 metros de testada, sem porta nem parede, totalmente aberto e liberado.

É a “Livro Livre ESPM”, com 2 mil livros à disposição de leitores. Qualquer pessoa está livre, 24 horas por dia, 7 dias por semana, para retirar o livro que quiser, quantos quiser. E, se possível, devolvê-los um dia. E ainda, se assim lhe parecer, doar outros. Não é um gesto de esperança e de confirmação de que o livro resistirá?

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação


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