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Renato Nalini: O supra sumo da ignorância

JOSÉ RENATO NALINI | 09/05/2019 | 07:30

Acostumado a se considerar o ápice dentre as criaturas, o homem adquire uma arrogância que compete, em dimensão e intensidade, com a sua invencível ignorância. Foi o que Marcelo Leite, doutor em ciências sociais pela Unicamp, escreveu quando resenhou o livro “Outras Mentes”, de Peter Godfrey-Smith. Textualmente: “Nossa ignorância sobre vida marinha só não é mais vasta que o próprio oceano. Uma grande injustiça, porque sem ela não existiriam organismos inteligentes na Terra e, portanto, o filósofo mergulhador Peter Godfrey-Smith não teria como investigar o que os polvos têm a nos elucidar sobre a origem da consciência”.

Os polvos, ao lado das lulas e dos “chocos”, são parentes bem sofisticados na escala animal. Pois integram o grupo dos cefalópodes, cujos sistemas nervosos são grandes e complexos.

Estudar com profundidade essa espécie de vida ajuda a esclarecer a evolução da mente humana. Os cefalópodes têm neurônios em todo o seu corpo, com enorme concentração nos oito braços. Estes não estão continuamente sob controle do cérebro central, mas “raciocinariam” por conta própria.

Há muitos enigmas na existência desses animais. Vivem muito pouco, de dois a quatro anos, pois seus sistemas nervosos muito complexos consomem imensa quantidade de recursos do organismo. Para o filósofo mergulhador, que pesquisa em pequena área a leste da Austrália, a quinze metros de profundidade, ainda há muito o que aprender sobre os polvos. Mas o que apurou já o faz considerar que eles são, provavelmente, o mais perto que chegamos de um alienígena inteligente.

O que vale, além da curiosidade, é o clamor ético em defesa dos oceanos. A nossa mente evoluiu no mar. “Todos os estágios iniciais ocorreram na água: a origem da vida, o nascimento dos animais, a evolução dos sistemas nervosos e dos cérebros e o aparecimento de corpos complexos que fizeram valer a pena ter cérebro”.

Entretanto, a nossa incúria está envenenando as águas. O lixo plástico mata a vida marítima e continuamos, impunemente, a transformar todos os espaços em depósito de dejetos. Tem razão Marcelo Leite ao afirmar: “seguir poluindo o mar como fazemos, só comprova que a nossa ignorância chega a ser abissal”.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, Docente da Pós-Graduação da UNINOVE e autor de “Ética Ambiental”, RT-Thomson Reuters.

JOSE RENATO NALINI


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