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Renato Nalini: Onde foi que erramos?

JOSÉ RENATO NALINI | 03/03/2019 | 07:30

Essa é uma pergunta recorrente em vários espaços. São os pais, questionando conduta de filhos que os deixam perplexos. São os educadores, surpresos com a reação de alguns alunos. É o cidadão polido ao verificar como os costumes foram se alterando celeremente nas últimas décadas. Enfim, sempre cabe indagar, quando a decepção é maior do que a satisfação.
Confesso que, saudosista, estou sempre a refazer essa indagação. Ao percorrer as ruas de minha cidade, hoje tão diferente do meu tempo de criança e adolescente. Tempo em que todos se conheciam e se cumprimentavam. Era comum caminhar pelas ruas, a qualquer hora, assobiando e parando para conversar no degrau de um armazém.
Os jardins das residências eram bem cuidados. As casas eram, efetivamente, o asilo inviolável da família. Havia procissões. Residências de famílias tradicionais caprichavam para a honra de ser uma das “estações” da Via Sacra. A Semana Santa era realmente Santa. Respeito e reverência.
O Natal era antecedido da visita do Menino Jesus às residências. Pernoitava em cada casa que, no dia seguinte, após à oração, conduzia a imagem até o novo presépio. No último dia de dezembro, todas as belas estátuas do Bambino eram conduzidas até à Matriz, como encerramento de uma preparação natalina que não se esquecia do aniversariante.
As pessoas se visitavam sem necessidade de agendamento. Era com alegria que se recebia os amigos. Sempre havia um licor, um café, uma compota, uma goiabada, um bolo ou uma bolacha à espera.
As ruas eram limpas. Não havia pichação. Cantava-se música melodiosa. As crianças declamavam nas festinhas e não havia quem deixasse de aprender um instrumento nos Conservatórios Musicais. No dia do professor, disputava-se o privilégio de saudar a mestra e ela recebia presentes modestos, mas entregues com a embalagem da gratidão.
A “compra do mês” era feita em armazéns nos quais o dono estava atrás do balcão, anotava em caderneta e presenteava o freguês com uma lata de marmelada. Quando a compra era grande, vinha a lata maior, com o doce “quatro em um”.
Havia também os mendigos. Mas era uma pobreza digna. Onde foi parar essa época? Onde foi que erramos, ao enfear a cidade, não só esteticamente, mas ferindo-a na alma, eis que mutilada naquilo que deveria caracterizá-la: a civilidade.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, palestrante, conferencista e consultor jurídico.

Foto: Divulgação

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