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Renato Nalini: Paulo Bomfim – 1926-2019

JOSÉ RENATO NALINI | 11/07/2019 | 07:30

Ele esperava atingir seu centenário. A Providência não permitiu. Faleceu dois dias antes de 9 de julho, sua data patriótica. Sobre Paulo Bonfim, o Brasil terá muito o que falar. Poeta precoce, Príncipe dos Poetas Brasileiros eleito em 1981, para suceder a Guilherme de Almeida e a Olavo Bilac. Depois dele, deve ser proclamada a “República da Poesia”. Não mais Príncipes, Reis ou Imperadores.

Aqui prevalecerá o coração e a gratidão de quem, quase menino, foi ao lançamento de um livro seu de sonetos, em noite promovida por Mariazinha Congilio. O autor já consagrado, que foi um dos pioneiros da TV brasileira ao apresentar “Mappin Movietone” e já era o então Secretário da Cultura do Estado, dedicou ao interiorano atenção idêntica àquela com que autografava para os importantes da época.

A admiração que minha mãe sempre devotou àquele a quem chamava “São Paulo Bomfim”, por ser a mais autêntica representação do amor bandeirante, foi herdada pelo filho. Não sem antes afinar as afinidades. A presença permanente em todos os episódios inesquecíveis. A morte de meu irmão, a morte de meu pai, as celebrações do aniversário de minha mãe, para quem escreveu poema. A vibração com as vitórias na carreira, a unção para que eu chegasse à Academia Paulista de Letras, privilégio com que nunca teria sonhado. A alavanca para que eu a presidisse por três vezes! O enaltecimento autêntico, generoso, amorável.

Mais ainda, a verdadeira adoção afetiva a partir da morte de minha mãe. A convocação para almoço diário em sua casa acolhedora, ninho de pureza na podridão das relações interesseiras.

Nada pude fazer por Paulo Bonfim, senão amá-lo. Reverenciá-lo. Reconhecer seus imensos méritos. Testemunhar de que ele é a prova concreta de que existe bem descontaminado. Ligação de quem não apenas “se conhece, mas se reconhece!”. No mar das falsidades, das hipocrisias, das vantagens mesquinhas de quem pretende se valer das gloríolas transitórias com que a vida às vezes nos premia, Paulo Bonfim foi a exceção comprobatória da regra: a humanidade é um projeto com fissuras morais. Ele não, lírio incorruptível de bondade, mel da amizade, não o fel do fingimento. Deixa-me novamente sorver a amargura de outra orfandade.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, devedor insolvente da excelsa generosidade de PAULO BOMFIM.


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