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Renato Nalini: Uma bruxa bondosa

JOSÉ RENATO NALINI | 14/04/2019 | 07:30

Dentre os vários centenários a serem celebrados em 2019, destaca-se o de Tatiana Belinky. Nasceu em São Petersburgo, quando a cidade se chamava Petrogrado, em 1919. Aos dez anos chegou a São Paulo com os pais e dois irmãos menores. Casou-se com Júlio Gouveia, médico-psiquiatra, terapeuta e educador, com quem teve dois filhos. Que lhe ofertaram cinco netos e três bisnetos.
Em 1948 começou a fazer teatro para crianças, junto com o marido, para a Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo. O advento da TV descobriu o casal e de 1951 a 1964, apresentavam quatro espetáculos de teleteatro por semana, ao vivo. Não havia vídeo-tape. Tudo na TV Tupi, Canal 3.
Deve-se a Tatiana a primeira grande série do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, com 350 capítulos. Quem não se lembra, se criança daquela geração, de Lúcia Lambertini como a boneca Emília, EdiCerry e Verinha Darcy, como Narizinho, David José como Pedrinho?
Produziu minisséries de cinquenta capítulos, adaptando romances famosos, episódios das Sagradas Escrituras, biografias e episódios históricos. Aos domingos, o “Teatro da Juventude”, com peças inteiras, de quase duas horas. Foram mais de 1.500 textos apresentados na televisão.
Sem prejuízo, Tatiana traduziu literatura inglesa, russa e alemã. Desde 1985, produziu seus próprios textos, a maioria para crianças e jovens. Foram mais de 130 livros publicados.
Tatiana era uma pessoa doce, generosa, bem humorada. Ingressou na Academia Paulista de Letras em 2010 e foi saudada por Francisco Marins.
Gostava de colecionar bruxinhas e se dizia uma “bruxa do bem”. Por ocasião do centenário, procurei comover a Folha de São Paulo a registrar a efeméride. Mas isso já não entra na cogitação da mídia espontânea, afeiçoada ao que é atual e distanciada de qualquer ideia de tradição.
Sinal dos tempos ásperos em que vivemos. Tudo efêmero, tudo descartável, tudo hiper. Como se o tempo também não fosse atingir aqueles que hoje se esquecem do passado, de figuras exemplares em todas as áreas e que mereceriam ser dignificadas. Até para fornecer às novas gerações paradigmas de atuação. Infância e juventude tão necessitadas de exemplos, só têm como parâmetro aquilo que o mercado oferece, para consumo imediato e subsequente olvido.
Pobre e medíocre mentalidade!

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, Docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras, gestão 2019-2020.

Foto: Divulgação

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