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Resíduos de emoções

Maria Cristina Castilho | 19/02/2018 | 05:06

A moça nasceu e permanece em lugar distante daqui. A sua cidade de origem se encontrava em expansão em meados da década de 60. Sua casa, no entanto, era de periferia da cidade grande.

Os pequenos riachos, outrora espaço de folguedos, se transformaram em rede de esgoto a céu aberto, proliferando doenças. A falta de perspectivas de futuro da maioria de seus amigos, de infância e adolescência descuidadas, se transformou em violência.

E esse assunto de falta de atenção para crianças é complexo: inúmeras vezes, a presença paterna é apenas um nome – isso quando assume – e a materna se faz de serviços transitórios para sustentar os seus pequenos. Escolas com período integral são poucas. Milhares de pequeninos, portanto, crescem ao acaso.

Mal o corpo de moça tomou o lugar da criança foi para o centro, distante das misérias de seu bairro, e lá conheceu as luzes das boates. Inseriu-se nos cabarés, como outras garotas com quem brincava de roda, de bonecas feitas com sabugo, de nadar nos riachos com esgoto…

Envolveram com álcool as desesperanças e se tornaram cinderelas somente dos impulsos sexuais. Foi em um dos palcos que notou haver dentro dela uma palpitação diferente. Aceitou sem festa. Resultado de seu cotidiano. Entregou para a mãe criar. E foi, assim, ao longo do tempo, guardando sentimentos cinzas, descrenças, autoestima negativa, decepções…

Do palco à sarjeta, o brilho e colorido se desfizeram. O sangue que pulsava em seu coração se tornara como os riachos das beiradas de seu berço. E por considerar que era sina, deixou tudo acumulado em seu íntimo. Para completar veio, recentemente, o diagnóstico da doença incurável que exige muito zelo. Fechou-se em seu cômodo, alimentando-se de “cigarro”.

A filha foi vê-la. O entorno do cômodo sem sujeira, mas dentro o acúmulo de lixo de todos os tipos, o que produz e o que recolhe das ruas, e insetos e roedores em circulação. Esbravejou com a limpeza. Amaldiçoou quem removia o que era parte de seu mundo.

Construíra sua história sobre detritos. Fora expulsa da vida de inúmeros e ali lhe restava o que conseguira. Além de possíveis desatinos, provocados pela doença, creio que o armazenamento de despejos era a imagem do que guardou pela vivência de misérias tantas, sem a possibilidade de se fortalecer e de um ombro que lhe dissesse de respeito e amor.

MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista


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