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Rose Gouvêa: A onda brasileira

ROSE GOUVÊA | 24/04/2018 | 04:00

As pessoas de bom senso deixaram correr, solta, a loucura de indivíduos manipulados por partidos de extrema-direita, pela grande mídia e por grupelhos formados por radicais e oportunistas.

O resultado é um Brasil criticado no exterior porque descamba perigosamente para a ideologia fascista. Exemplos desse fascismo descarado, que acredita na impunidade, não faltam por aqui.

Desde as manifestações de 2013, algo já demonstrava estar errado. Com o pretexto de “lutar por um Brasil justo”, pessoas invadiram avenidas do País, impedindo bandeiras de partidos políticos e de movimentos sociais, chegando mesmo a agredir aqueles que ousavam descumprir a “ordem” dos líderes de tais manifestações.

Nesse inicio de período insano, que se perpetua até os dias atuais, uma luz de alerta acendeu em mim e cenas do filme alemão “A Onda” emergiram da minha mente receosa.

Esse receio mostrou ter razão de ser quando um “boom” de ódio tomou conta do Brasil em 2015, em forma de novas manifestações que pediam a retirada ilegal da presidenta legitimamente eleita e a criminalização de ideologias de esquerda.

A partir daí, a onda fascista (não a do cinema, mas a da vida real, não a da Alemanha, mas a do Brasil) inundou todos os lugares: poder público, educação, cultura e demais espaços sociais.

Tornou-se comum assistir, por exemplo, políticos incentivando a tortura, o ódio contra minorias e a xenofobia (esta última mais recentemente provocada pela senadora Ana Amélia contra o mundo árabe).

Testemunhei desrespeito contra professores e defensores de direitos humanos em câmaras municipais, quando da votação dos abjetos projetos “Escola Sem Partido” (ESP). Vi artistas ameaçados de morte, diretores de museus perseguidos e peças de teatro atacadas, simplesmente por apresentarem arte… Arte!

Observei grandes pensadores como Judith Butler e Chico Buarque serem censurados e quase agredidos fisicamente por expressarem seus trabalhos e opiniões.

Assisti, com horror, criaturas aplaudindo o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco, aguerrida defensora de direitos humanos.

Enfim, se alguém mais, além de mim, sente-se sufocar no Brasil de ares cada vez mais carregados de intolerância, comece a reagir, usando de informação e de sensatez apaziguadoras. Caso contrário, precisaremos abandonar este País aniquilado pela onda fascista. Por favor, não permita que isso aconteça.

 
ROSE GOUVÊA é advogada, militante LGBT de Jundiaí há 12 anos e presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/rose-gouvea-a-onda-brasileira/
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