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Rose Gouvêa: Marias, Marias..

ROSE GOUVEA - opiniao@jj.com.br | 13/03/2018 | 05:31

Somos Marias, Sandras e Cláudias. Mulheres que merecem viver e amar como qualquer outra no planeta. Mas em 2017, 4.473 mulheres foram assassinadas no Brasil. 21% dos casos foram feminicídios (crimes motivados pela condição de gênero). Mulheres, vítimas de violência doméstica, passam por uma verdadeira provação ao buscarem Justiça. As delegacias da Mulher não têm estrutura para atendê-las. Algumas esperam horas por atendimento. Se não bastasse, aqui em Jundiaí, depois da delegacia, ainda precisam atravessar a cidade, com seus corpos e almas machucados, para fazerem o exame de corpo de delito. Muitas desistem porque não suportam sofrer mais uma violência, vinda justamente do Poder Público, aquele que deveria protegê-las.

Por conta da transfobia, mulheres transgêneros têm uma expectativa de vida de apenas 35 anos. Somos Renatas, Andrezas e Elizas. Somos a dose mais forte e lenta de uma gente que ri, quando deve chorar e não vive, apenas aguenta. No Brasil, o trabalho de mulheres não é valorizado. São mães preteridas em vagas de empregos, outras sofrendo assédio. E a maioria, quando chega em casa, enfrenta uma segunda jornada de trabalho não remunerada. Apesar do nível de instrução da mulher ser maior do que a do homem, ela ainda ganha 75% menos do que ele. Somos Verônicas, Dandaras e Luanas. Somos aquelas que trazem nos corpos uma marca, numa mistura de dor e de alegria. As mulheres são a maioria da população brasileira e também do eleitorado. Mas não têm a representatividade merecida na política – 52% dos eleitores pertencem ao gênero feminino, mas as mulheres representam, em média, apenas 9% dos cargos nas Casas Legislativas.

Somos Mickaellys, Mayaras e Camilas. Somos aquelas que não desistem, porque é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho, sempre! Apesar de vivermos num País que hostiliza e mata as suas mulheres, seguimos lutando pela igualdade de direitos: pelo direito ao corpo, à educação, ao trabalho, ao sexo, ao amor, à vida! Todas as mulheres citadas aqui sucumbiram diante da violência machista e patriarcal. É impossível escrever seus nomes e não me emocionar. Mas, por todas elas e pelas mulheres que ainda nascerão, é preciso seguir em frente para que textos como este não precisem mais ser escritos. Do luto à luta! Porque quem traz na pele essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida!

ROSE GOUVÊA é advogada, militante LGBT de Jundiaí há 12 anos e presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí


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