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Salvo a foto, saudoso

GUARACI ALVARENGA | 18/10/2019 | 07:30

Há uma imagem histórica, que está sendo compartilhada em todas as redes sociais, que me emociona pela beleza de uma paixão brasileira, que há muito tempo enfraqueceu.
O que o passado tem de bom, que o futuro talvez não tenha, é o dom ser intocável.

Quando vemos hoje o futebol de jogadores milionários, carros de luxos, salários exorbitantes, aviões fretados, hospedagem em hotéis incríveis, centros de treinamentos por excelência, sem nada convencer, não há como se calar.

Quem ousaria apagar o halo de eternidade que esta fotografia, em branco e preto, espelha em suas figuras luminosas. Sim, uma simples foto, mas é um devaneio. Craques da seleção brasileira de 1958, esperando o trem em Poços de Caldas, antes da Copa na Suécia.

No banco rústico da pequena estação, sentados, lado a lado, verdadeiros mitos de nosso futebol. Nilton Santos, a enciclopédia do futebol. Dino Sani, elegância no trato da bola. Gilmar, o goleiro, campeão de tudo. Beline gesto histórico: os braços levantados, a taça entre as mãos, erguida para o céu. Garrincha, as pernas tortas do drible de pura magia. Mazzola, internacional, um dos maiores artilheiros do mundo. Zagalo , a formiguinha do time. Didi, a figura principesca, soberbo. Djalma Santos, o primeiro ala do futebol. Vavá, o peito de aço. Ainda Moacir, Dida, Joel, De Sordi, Zito, o gerente, Pepe, Zozimo, Orlando, Oreco, Mauro Ramos de Olivieira, imperturbável, o Marta Rocha do futebol. E o último no banco, o garoto que jamais perdeu o lugar de primeiro do mundo. O atleta do século. O rei Pelé. Já se diferenciava no trajar, enquanto todos usavam meias brancas, vestia meias pretas, combinando com a cor de seu sapato.

Foram jogadores humildes, mas seduziam pela beleza do futebol arte. Eles deram os melhores recitais de futebol em nossos campos de sonhos. Por certo não ficaram ricos. Não foram ídolos simplesmente, são mitos. Nobres nesta paixão , a quem devemos deitar um olhar de infinito respeito.

Estes jogadores nunca foram minados pelo narcisismo. Ninguém ali cuidava de si. Alcançaram a consagração popular porque têm virtudes de espírito. A virtude mais nobre da solidariedade. Formaram uma grande seleção, segundo alguns críticos categorizados, a nossa melhor seleção de todos os tempos.

Seleção canarinho, bela metáfora que se inventou para exaltar a gloria de uma equipe excepcional. Nunca discutiram prêmios por vitórias. Jogavam por amor à camisa brasileira. A cada gol a emoção destampava, empilhava no campo os jogadores, num abraço incontido.

Salvo a imagem, no meu álbum de família, saudoso. Ela guarda todas as emoções que vivi como torcedor no futebol. Um abraço ao amigo Adilson Pilot por ter me encaminhado a foto, com as identificações. Sejam felizes.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E-mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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