Opinião

Saneamento, construção e saúde


Dia 18 de fevereiro, sob o título "Nem tudo muda", opinei aqui sobre a perenidade dos significados de criatividade e empenho. São importantes na análise dos critérios atuais do trabalho, para o qual a evolução tecnológica muita ajuda. Agora, a reflexão é sobre o significado das expressões do título nos aspectos de urgência, persistência e perenidade. Saindo da crise de 1930, a indústria despertou em São Paulo e, encontrando mão de obra que incluía imigrantes com alguma qualificação, pôde expandir na Capital. No interior, Campinas já os tinha em suas grandes fazendas, e muitos foram às indústrias. Alojaram-se em habitações precárias, em áreas sem água e esgoto. O fraco serviço de saúde não evitou doenças, que se agravavam com a presença da tuberculose. Esta exigia tratamento em cidade sanatório, na época Campos do Jordão. A grande perda humana obrigou a Prefeitura de Campinas, em 1934, a contratar o engenheiro arquiteto Francisco Prestes Maia para um plano urbanístico, que logo produziu bons efeitos. O saneamento era uma preocupação no mundo, e dentre as especialidades motivadas, os urbanistas liderados por Le Corbusier, em 1933, fizeram a Carta de Atenas. Ela foi a precursora das leis de loteamentos destinando às áreas e aos principais usos de futuros habitantes. Atento ao que se passava, o estado de São Paulo criou em 1951 a lei que instituiu normas para as construções e, em sua quarta parte, o Traçado Sanitário das Cidades. Dentre as muitas decisões, determinou a largura das ruas, porcentual para as áreas públicas, marginais ao longo dos rios etc, e o título sexto tratou da insolação, iluminação e ventilação. Para obter a incidência de sol na habitação, exigia medidas em pátio e corredor externo. A lei foi oportuna e assegurou melhores condições de uso do solo em todas as cidades do estado. Pelo muito que se fala, o mundo mudou. É verdade. A avançada tecnologia nos oferece grandes edifícios de forma exótica, climatizados artificialmente, e muitos comandos eletrônicos e serviços residenciais que eram só internos passaram a coletivos. Enfim, boa parte da privacidade passou a ser no condomínio e menos na habitação. Na saúde, o indivíduo há muito sabe que sempre será amparado pela medicina, graças a modernos hospitais e o uso das muitas drogarias. A crise atual, de característica incomum, enfatiza a importância de práticas tradicionais, que estão voltando para ficar. A intensa modernização cegou a todos, até que no vigésimo ano deste século fomos acordados pelo covid-19 de que a humanidade se esqueceu de buscas vitais. Doravante o saneamento não poderá ser esquecido, a construção deverá obedecer o projeto que resgate práticas precocemente dispensadas, e adote objetivos claros. A saúde vai ter de sair da retaguarda, e deverá redefinir metas de investigação para as novas necessidades da civilização. ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.

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