Opinião

Saúde mental e coronavírus


Primeira morte pelo coronavírus em São Paulo. Homem, 62 anos, diabetes, hipertensão, e hiperplasia prostática. A epidemiologia é certeira. E ainda querem dizer que a ciência não tem relevância e que as universidades não produzem saberes importantes. Nas últimas semanas sofremos o impacto de uma das mais dramáticas e inusitadas experiências que a humanidade viveu até hoje. De proporções planetárias, a difusão do covid-19 nos atordoa intensamente e agita nossas orientações físicas. Também psiquicamente: tudo está de pernas para o ar. Sem saber muito bem o que dizer, o que fazer e como fazer, para suportar tantas e tão intensas mudanças, seguimos meio atônitos, tateando. De repente temos que experimentar afastamentos sociais, de nossos próprios familiares, amigos, comunidades e afins. Isolados quase que de nós mesmos. O jeito de viver mudou e mudará ainda mais e radicalmente. Navios se transformam em hospitais, hospitais sendo construídos em 10 dias: a capacidade humana sendo desafiada a criar soluções para problemas que são simples e muito complexos ao mesmo tempo. Epidemias a humanidade viveu muitas. Mas como essa, nunca. O medo da morte, da solidão, da falta de ar. Sem querer e sem que saibamos, angústias são reativadas internamente, e nos vemos diante de historias já vividas, esquecidas, e agora relembradas . Lamentavelmente, nosso presidente descola de nossa realidade, e se arvora numa posição de invencibilidade, típica daqueles que, ao não conseguir lidar com suas próprias posições de angústia, encontra nos delírios sua última tentativa de manter contato com a vida comum e corrente. Agora, mais do que nunca, precisamos de sabedorias. Todas, de todo tipo, para estar ao lado de todos e de cada um. Teremos que nos confrontar não apenas com o vírus, mas com o que estamos fazendo com nossas vidas humanas, individualmente e socialmente. Teremos que fazer brotar de nós mesmos o melhor de nossa disciplina, de nossa solidariedade, de nossa capacidade de dar aquilo que nós mesmos estamos precisando. Dessa vez, o terremoto não fica ali do lado, no país vizinho, mas aqui mesmo, em nossa própria casa. Literalmente. Temos que nos salvar e salvar a todos ao mesmo tempo. Essa terá que ser a energia que vai preservar nossa saúde mental. Sermos produtivos com o que temos a fazer. Aproveite. A mudança é inevitável. Não faça de conta que ela não existe. MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

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