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Sua cabeça é para-choque

JOSÉ RENATO NALINI | 21/07/2019 | 07:30

Essa a frase que repeti qual mantra para meus filhos, quando se apaixonaram por motocicleta. Sempre considerei esse veículo que seduz juventude e também os mais experientes, muito perigoso para servir como opção de micromobilidade. Talvez porque, desde criança, impressionei-me com acidentes com uma tia, que praticamente perdeu a perna. Teve de fazer reconstituição de platina e nunca mais caminhou normalmente.

Agora as estatísticas evidenciam que não era síndrome do pânico ou exagero pessimista. Os óbitos em São Paulo subiram 17,7% em 2018. Pela primeira vez, desde o ano de 1979, os motociclistas superam os pedestres na condição de vítimas do trânsito.

Foram 366 mortes de motociclistas em 2018, já que em 2017 foram 311 as baixas. Enquanto isso, os pedestres mortos foram 349. Foi o balanço divulgado pela CET, Companhia de Engenharia do Tráfego.
Dentre os mortos, 58 motociclistas não eram da capital. É notório o aumento de motos na megalópole. Excesso de carros, excesso de engarrafamento, excesso de impaciência. Isso gera efeitos perversos, como inobservância das regras de trânsito. Ninguém resiste a atravessar o semáforo adverso. A pressa é uma constante. Já foi introjetada no comportamento do paulistano.

Os serviços de entrega também contribuíram para que o movimento de motos aumentasse. As motos desviam dos carros, passam entre eles parados, com um irritante buzinar para que os motoristas permaneçam em suas faixas e deixem aquele espaço mínimo pelo qual, à toda a velocidade, continuam sua marcha. Quase esbarrando nos automóveis, cujos retrovisores empurram sem cerimônia, quando atrapalham a passagem.

Os chamados motofretistas, aqueles que fazem entregas, contribuíram com 50 mortes. Isso representa 14% dos motociclistas mortos e 6% do total. 91% são homens, como é natural. As Marginais Tietê e Pinheiros, as rodovias dos Bandeirantes e Raposo Tavares, são as campeãs entre as mortes. É uma parcela considerável da juventude que perde a vida quase sempre em virtude de imprudência, de assunção de riscos, de apreciar o perigo, características tão próprias a essa etapa existencial.

Além dos mais de 60 mil assassinatos de jovens por ano, acrescentamos essa conta e fraudamos o futuro, tão necessitado de pessoas que produzam, que criem e que fruam o ciclo natural de uma vida humana saudável.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.

JOSÉ RENATO NALINI


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