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Suicídios em análise

MARGARETH ARILHA | 02/10/2019 | 05:00

O título brinca com a minha formação e com as atividades a que me dedico. Como disse Lacan, ninguém pode ser psicanalista sem tentar compreender a subjetividade, eu diria as subjetividades de seu tempo.

Na pesquisa, crio laços entre os instrumentos de compreensão que carrego. Na teoria e clínica psicanalítica, escuto sujeitos que buscam através da expressão de suas dores e conflitos, encontrar aquilo que os determina como sujeitos pulsantes.

Termino o mês de setembro depois de ter aprendido muito com as inúmeras conferências, participação em mesas redondas, debates, convívio com outros pesquisadores, especialmente profissionais de saúde e de educação, assim como familiares.

O fenômeno não é totalmente novo. Os seus contornos e proporções atuais é que impressionam. O Harakiri, por exemplo, prática oriental relativamente conhecida em nossos tempos, exprime com muita facilidade aquilo que, de certa maneira, um suicídio ainda mantém como sentido que respinga: um sentimento de imperfeição, de indignidade, de impotência para lidar com o mundo, a dificuldade de lidar com a falta, condição sine qua non, para a Psicanálise, da estruturação do sujeito inserido no mundo da linguagem.

No Brasil, o maior número de mortes ainda ocorre entre a população masculina, muito embora as mulheres sejam as que mais tentam suicídios e que majoritariamente executam as auto-mutilações.

Como todas as enfermidades, são determinadas por recortes de gênero, raça e idade.
Nos últimos anos, a preocupação com os jovens se justifica porque é nessa faixa etária que tem havido maior crescimento no número das mortes, e tem se dado muito rapidamente. No entanto, quando analisamos os dados oficiais, do total de suicídios no Brasil , de 2011 a 2016, cerca de 23% ocorreu entre homens com mais de 75 anos, sendo que o segundo grupo por ordem de grandeza é de 13 % e está entre os homens de 60 a 74 anos. Se somarmos os dois grupos etários, eles responderiam juntos por cerca de 36%.
Ou seja, estamos falando que o maior grupo de risco entre os homens está situado entre os idosos. Já entre as mulheres, o maior número de tentativas de suicídio ocorre entre as mulheres que terminaram a vida reprodutiva. Entre 45 e 60 anos.
Portanto, atentem para o fato de que a dor civilizatória é a da impotência como metáfora escrachante do que vimos sentindo como humanos. Da indignidade. Do abandono. Da solidão. Da exclusão. Em que condições viveremos?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.


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