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Tempos de romaria

GUARACI ALVARENGA | 17/01/2020 | 05:00

Foi num cálido outono jundiaiense: o sol deitava um olhar luminoso sobre aquele domingo de maio. Os povos festejavam pela paz, com o final da grande guerra mundial: uma saga de briosos cavaleiros, uns vindos do bucólico Caxambu e outros nativos do centro histórico da Terra de Petronilha Antunes, seguraram na firme rédea da bênção e abriram um caminho de fé até o abençoado refúgio do altar de Pirapora de Bom Jesus.

Assim nascia a maior de nossas romarias, uma senhora centenária Diocesana, e uma das mais antigas tradições desta histórica cidade. Os anos se sucederam, e a tradição se espalhou de geração em geração, alcando os corações de toda região.

A igreja Nossa Senhora do Rosário, nos jardins do Largo Santa Cruz, acolhia os romeiros para a santa missa das 5 da manhã. Os cantos dos pássaros, em suas frondosas árvores, anunciavam o alvorecer. A grama ainda beijava o orvalho da manhã: era chegada a hora da partida.

A “rua de Pirapora”, o chão batido, o caminho roçado, o zeloso pessoal do seu Emílio com os cuidados do percurso, o Capão da onça, Ponunduva: nada fugia aos olhos daqueles valorosos cavaleiros. A grandiosidade da peregrinação invadiu a região urbana, onde inúmeras residências contavam em seu fundo de quintal com uma cocheira, morada fiel deste nobre animal, o cavalo, uma marca de convívio inseparável e um fortíssimo produtor de amizades entre os homens. Personagens desta lenda viva marcaram com brilho e muita saudade as páginas deste centenário álbum de família.

Quem há de se esquecer da Casa Brasil, na rua do Rosário?

Os arreios do Luis Piva eram verdadeiros adornos. Os dóceis cabrestos e rédias do Agenor Brechó, na Vila Aparecida. As confortáveis selas do Chico Seleiro em Valinhos, a bateção nas bigornas. Ferrucio na Vila Rami, Amaury no Retiro e o seu Baialuna na Colônia. Levante a mão de cavaleiro quem nunca deixou para a última hora para ferrar seu cavalo.

Este costume religioso abraçou famílias tradicionais deste torrão. A romaria adquiriu ao longo destes anos uma devoção e fervor religioso que faz levar uma multidão de pessoas a visitarem as relíquias de Bom Jesus de Pirapora. Tempos de Romaria são tempo de Fé. De regressar. De venerar. De reviver. Tempo de cumprir novas promessas.

Sobre todos estes anos, deito um olhar de infinito respeito. Ainda sinto, em cada um destes romeiros, o pulsar da mesma fé e da eterna devoção que preservou esta santa tradição, que confere na sua expressão maior: nossa identidade cristã Que Bom Jesus de Pirapora, abençoe toda esta gente.

GUARACI ALVARENGA é advogado.


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