Opinião

Tempos horríveis


Recordo-me de uma espécie de mantra com o qual a inesquecível professora Esther de Figueiredo Ferraz se emocionava e nos emocionava: era encontrar, em cada manhã, sobre sua mesa de mestra do ensino primário em Santo Amaro, uma flor, uma goiaba ou maçã. Presentes singelos de seus aluninhos, moradores da periferia paulistana. Era a forma de crianças pobres, porém educadas, demonstrarem o seu carinho para a professora. À evidência, não era a escola que ensinava isso. Os alunos traziam de casa. Muitas mães que nunca tiveram a oportunidade de estudar, estimulavam os seus filhos a reconhecerem o valor do aprendizado. Eram tempos heroicos, mas parece que foram relegados ao ostracismo. Hoje, a notícia é de que uma professora de escola estadual no Grajaú, na mesma região de Santo Amaro, foi vítima de tentativa de envenenamento. Seus aluninhos de dez e onze anos, colocaram veneno para inseto em sua garrafa d'água. A professora passou mal e teve de ser hospitalizada. Graças à Providência, não morreu. O que se extrai desse fato? A indigência em que mergulhou boa parte da sociedade brasileira. Uma sociedade que só tem e reivindica direitos, mas que não assume seus deveres e obrigações. A responsabilidade do ensino é exclusivamente do Estado, a maior preocupação é transporte e alimentação e não se acompanha o desenvolvimento do aprendizado. Que falta faz o currículo oculto das mães que zelam pela educação de berço e fazem questão de que sua cria respeite o próximo. As "palavras mágicas" estão em falta. Em boa hora, Angela Vidal Gandra da Silva, a Secretária da Família do Governo Federal, a FIESP, muita gente entusiasta, liderada por Dalva Christofoleti Silva Paes, todos juntos motivam o Instituto Maurício de Sousa, do mago criador da "Turma da Mônica", a resgatar o valor das "palavras mágicas". Elas são conhecidas. "Por favor", "muito obrigado", "desculpe-me", "com licença", até os triviais “Olá”, “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “até logo”, e “até amanhã". Pode ser um começo modesto, mas essencial para a recuperação do valor familiar. Nada substitui o afeto que une pessoas que se amam e sabem se respeitar. E, ao se respeitarem, aprendem também a respeitarem o próximo. Se o movimento adquirir escala - e isso depende de cada um de nós - haverá esperança para este Brasil polarizado e em guerra permanente, de todos contra todos. Vamos fazer o caminho de volta e edificar uma comunidade harmônica e fraterna. JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.

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