Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Ter pai & Ser pai

JOSÉ RENATO NALINI | 11/08/2019 | 07:30

As noções precisas das coisas chegam tarde. Quando já não conseguimos refazer as rotas. A aventura existencial é efêmera. E frágil. Quantos não ficam às margens do caminho, com precocidade inexplicável?
Tenho hoje uma compreensão madura sobre meu pai. Um homem de bem. Sua família mostrou coragem – pai e mãe muito jovens – imigraram para a “América”, deixando o Vêneto para onde nunca mais voltaram.
Lutaram, edificaram enorme família, à luz da cultura peninsular. Princípios sólidos, impregnados de um catolicismo radical. Eram considerados, em nossa cidade, “pilares de São Bento”.

Nem sempre compreendi bem meu pai. Tentou fazer-me jogador de futebol, esporte que ele preferiu a um noivado aprovado pelas famílias e pela colônia italiana. Gostaria de que eu me afeiçoasse à sua profissão de modelador, marceneiro, carpinteiro. E eu era um “bicho de biblioteca”. Incentivado por mãe forte, lúcida e persistente, tive a “síndrome do primeiro da classe”. Até terminar o Bacharelado na gloriosa PUC-CAMPINAS.

Hoje, por meu pai – Baptista Nalini – tenho carinho imenso e não menor remorso. Não fui o filho com que ele sonhava.

Em compensação, não fui o pai que teria condições de haver idealizado. O DNA do trabalho me fez um escravo das obrigações. Troquei minha família pelos processos. Estes continuaram, são incessantes. A família seguiu seu rumo.

Não é apenas isso que lamento. Afinal, tentei realizar o justo concreto, de forma consciente e oferecendo o melhor de mim. Mas o tempo perdido com as relações superficiais de quem se aproxima do cargo e não do ser humano? A pequenez de algumas criaturas mesquinhas, interesseiras, com as quais não deveria ter tido contato? Isso eu lamento.

Todavia, a Providência é sábia e generosa. Meus dois filhos – João Baptista e José Renato – são pais. E são pais maravilhosos. Convivem com suas filhas. Acompanham-nas e compartilham de tudo. Disponibilidade plena. Viagens, exercícios, vida diária.

Não faltam aos eventos escolares, aos quais o pai deles nem sempre comparecia. Estão presentes. Por isso as minhas netas são privilegiadas: Maria Antonia, Lara, Ella e Maria Rosa têm pais fabulosos. Isso fará delas pessoas equilibradas, seguras do amor paterno (e também materno, mas hoje é dia dos pais…). Têm pais muito melhores do que este avô, que ainda precisa acertar contas com o seu próprio pai, de quem tem cada dia mais saudades, entregando à família a biografia que comecei e não consigo terminar.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/ter-pai-ser-pai/
Desenvolvido por CIJUN