Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Tia Júlia e o escrivinhador

Fernando Bandini | 26/02/2020 | 07:30

Romance de Mario Vargas Llosa, “Tia Júlia e o escrevinhador” é um dos livros mais conhecidos do escritor peruano, Nobel de Literatura. Lançado em 1977, conta a vida (e as muitas histórias) de Varguitas, jovem jornalista, estudante de Direito, e candidato a escritor na Lima da década de 1950.

Narra também a trajetória de Pedro Camacho, talentoso autor de radionovelas, cuja rotina de trabalho inclui a redação, a direção e a atuação em diversos folhetins diários veiculados pela emissora mais ouvida de Lima. Nascido na Bolívia, onde desfrutava de grande prestígio popular, Camacho foi contratado pelos Genaro, pai e filho, donos de duas rádios na capital peruana.

Egocêntrico, altivo e até insolente com seus chefes, Pedro Camacho é tolerado por quem lhe paga o salário devido ao sucesso de suas novelas. Vive numa pensão barata, de modo espartano, e sua inabalável jornada de trabalho não fica aquém das 16 horas diárias. Mas essa linha de montagem – produtora em série de personagens e situações – começa a capengar, a dar sinais de fadiga (o melhor é calar para não estragar as surpresas – inúmeras, nesse enredo mirabolante).

As histórias de Pedro Camacho são intercaladas com as do narrador, o rapaz de 18 anos que se apaixona por mulher mais velha e divorciada: um imperdoável escândalo para a sociedade da época. A desbocada e independente Júlia, irmã de uma tia por afinidade de Varguitas, é uma personagem e tanto, disposta a viver o presente. Seu namoro clandestino com o “garoto” rende alguns dos melhores episódios do livro, assim como as situações alucinadas e os personagens caricaturais inventados por Camacho. Não faltam humor, elegância e criatividade na escrita de Vargas Llosa. Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em Arequipa, no Peru, em 1936. Na década de 1950, cursou Literatura e trabalhou como redator de notícias em uma rádio de Lima. Ganhou projeção internacional com “Batismo de fogo”, de 1963, romance com pinceladas autobiográficas de sua passagem na adolescência pela Academia Militar. Mudou-se para Paris, onde foi redator da France Press, entre 1959 e 1966.

Também viveu em Londres e em Madri, antes de retornar ao Peru. Concorreu à presidência de seu país em 1990, tendo perdido a eleição para Alberto Fujimori. Ganhou o prêmio Miguel de Cervantes, o mais prestigioso para autores de língua espanhola, em 1994, e o Nobel de Literatura, em 2010.

FERNANDO BANDINI é professor de literatura do Ensino Médio


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/tia-julia-e-o-escrivinhador/
Desenvolvido por CIJUN