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Traumas e sonhos

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 12/12/2019 | 05:00

São meninas e meninos que despertaram há pouco para a adolescência. Começam a se perceber em maior profundidade e não sabem bem ainda como tratar as mudanças físicas, das emoções, os questionamentos que afloram. Habitam na distância, nos trilhos sem os trens e viagens. Temem o período das festas do final de ano. Segundo eles, esta é a época de conflitos e dívidas a serem cobradas com execuções.

Em lugar da fragrância dos pinheiros, espalha-se o cheiro de pólvora e sangue. Os terrenos escuros se sobrepõem às vitrinas iluminadas. Seja o justiçado conhecido ou não, o medo e a dor da perda se misturam. Dos casos mais recentes, recordam-se do jovem de 21 anos. Tinha consciência, em meio aos seus desvarios, de que a hora chegara. Impossível conseguir o valor da dívida. Oscilava entre o risco de não conseguir pagar e a compulsão pelo pó. Para poupar a mãe – tantos conselhos lhe dera – de assistir à execução, pediu-lhe dinheiro para cigarro e saiu, na madrugada fria, em direção ao “patíbulo”.

Do passado, ficou na memória a chance zero do jovem após passar uma noite na escuridão, amarrado a uma árvore, com escoriações diversas e sem perspectiva alguma de resolver o débito. Ao concluir sobre as torturas que precederiam a sua morte, “ajeitou-se” com chumbinho de rato.

São meninas e meninos, porém meditam sobre aquilo que mudou neles neste ano. Constatam que melhoraram na impulsividade, tornando-se assim menos agressivos. Julgam também que adquiriram maior lucidez em suas vivências, o que ajuda nos conflitos familiares.

Em alguns ou muitos casos, ausência de pai ou de mãe. Mãe ou pai presente, mas se considerando com os mesmos direitos dos filhos e, em inúmeras situações, se tornando ausentes por aventuras em tempo de responsabilidade. Depois que se tem um filho, algumas atitudes são incompatíveis, há que se renunciar ao prazer pelos cuidados com os filhos.

Meninos e meninas que refletem e consideram que vencer os impulsos é coragem de verdade, não terão olhos para o dinheiro do ilícito e nem para o uso de substâncias que mascaram a realidade e levam à falência de todos os tipos.

São meninos e meninas que descobriram, em sua história, embora ainda tão curta e independente de suas crenças, que há uma estrela que desponta na escuridão das noites e conduz a Belém, onde o Amor é de verdade e leva à Jerusalém da Ressurreição.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

Maria Cristina Castilho

 


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