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Um dia já foi assim

JOSÉ RENATO NALINI | 09/04/2020 | 05:04

A quinta-feira da Semana Santa marca o início do tríduo pascal para os cristãos. A origem do termo endoenças passa pela ideia de sofrimento e perdão. Nela aconteceu o que é mais importante para os católicos: a instituição da eucaristia. O próprio Deus entregando-se à humanidade como alimento para fortalecer a caminhada rumo ao infinito.

Há poucas décadas, a Semana Santa era realmente um acontecimento marcante em nossa cidade. O sábado anterior ao domingo de ramos era dedicado à Via Sacra, seguida da procissão do depósito. A imagem do Senhor dos Passos – Jesus carregando a cruz – saía da Matriz de Nossa Senhora do Desterro, o andor coberto por proteção roxa, em direção ao Largo de Santa Cruz. Assim era conhecida a Praça da Bandeira, onde está situada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.

Ali se retirava a cobertura e o andor coberto de manjericão era cercado pelos fiéis que o depenavam. Todos queriam guardar um ramo. No dia seguinte acontece a procissão do encontro nas ruas centrais. Durante a semana Via-Sacra com as estações enfeitadas em residências ilustres, como a de Alceu de Toledo Pontes, o Solar do Barão, onde pontificava D. Aninha, a casa de Benvinda e Thomás Del Nero, entre outras.

Quarta-feira era a noite de Trevas. Igreja sem luzes e matracas lembrando o homem de sua miséria finita. Na quinta-feira, a grande celebração eucarística, o Lavapés e o preparo espiritual para a Sexta-Feira Santa. A celebração da paixão com a belíssima cerimônia da descida da cruz. Comércio fechado, músicas sacras nas rádios, a procissão do enterro em silêncio compungido, a Verônica a cantar sua triste narrativa.

O domingo começava às 6 da manhã, com a procissão do Ressuscitado e a imagem de roca de Nossa Senhora recebia vestimenta mais condigna com a promessa de vida eterna. Tudo era mais impregnado de espiritualidade. Os sermões eram peças edificantes de oratória e erudição. A participação maciça das famílias, das irmandades e das crianças impregnava de devoção uma sociedade menos superficial, menos materialista, menos egoísta. Em síntese, mais cristã.

Será que era isso mesmo ou apenas nostalgia de um idoso angustiado com a situação do planeta? Mas garanto que um dia já foi assim.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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