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Uma era de meados

José Renato Nalini | 23/02/2020 | 11:09

A ninguém pode passar despercebido um fenômeno recorrente em nosso tempo: o sentimento do medo. Somos constantemente sujeitos ao temor, pois o perigo ronda sem tréguas. Medo de morrer, medo de ficar doente, medo de engordar, medo de emagrecer. Medo de perder a pessoa amada ou de perder o emprego. Medo de ser assaltado ou de ser enganado. Medo da solidão.

São tantos os medos! Sua infinidade é exuberante. Quem é que pode dizer, como um dia disse Juscelino Kubitschek, “Deus me poupou de sentir medo”? O rumo aparentemente insensato da sociedade contemporânea colabora para intensificar essa sensação. Vide a mídia: somos constantemente alertados de que houve homicídios, agressões, assaltos, estupros e violência das mais variadas formas. Vírus novos se propagam e fazem cair a bolsa e aumentar o valor de moedas estrangeiras.

Embora imersos numa civilização que se autodenomina “cristã”, a regra de ouro do – amai-vos uns aos outros – é de inviável observância. Sequer o respeito ao outro, imposição constitucional derivada do supra princípio da dignidade da pessoa humana, é obedecido pelo governo e pela sociedade. Existe antídoto para o medo?

Em tese, o ser humano tem plena consciência de que viver é perigoso. Nasce sem pedir, em família que não escolheu, em lugar que é uma surpresa. Sabe que, ao vir ao mundo, tem início a contagem regressiva que o levará à morte. Esta é inevitável e chega para todos, embora a maior parte pense que é predestinado à vida eterna – e neste planeta, não no etéreo, como aprendemos no catecismo.

Ser frágil e vulnerável é estar sujeito a todas as vicissitudes imagináveis. Por maior que seja o seu cuidado, vai pagando um tributo por viver mais do que alguns poucos anos. Contrai enfermidades, adquire fissuras, perde pessoas amadas. Perde para a morte, a indesejável das gentes, mas perde também para circunstâncias a que deu causa ou, pior ainda, em virtude de motivos que independem de sua vontade.

Como seria melhor a vida se assumíssemos a humildade de seres falíveis, finitos e cheios de defeitos. Mas esse aprendizado, a todos disponível, é geralmente desprezado. Continuamos a nos considerar especiais e vamos seguindo pela vida. Mas o medo continua a nos seguir.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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