Opinião

Uma pálida esperança

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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Há um velho conto, de muito passado, que explica, creio eu, o rumo certo que a maioria de nossos líderes deveria aderir por amor a um mundo mais humano. Um rei, ansiando por um mundo mais justo, com o objetivo de preparar seu filho, príncipe, que iria suceder ao pai no trono, mandou-o estudar no templo de um grande mestre. Quando chegou ao lugar respeitável, o príncipe teve como primeira tarefa permanecer, por um ano inteiro, dentro de uma densa floresta. Tinha a forte observação de descrever os sons da floresta. Passados os dias longos de solidão, retornou e contou ao seu grande mestre tudo aquilo que tinha conseguido ouvir. Os alegres cantos dos pássaros, o leve roçar das folhas, os tremendos grunhidos dos animais, o entusiasmo alvoroçar dos meigos beija-flores, a suave brisa beijando suavemente a verde grama, o doce zumbido das abelhas e os quatro ventos cortando os céus. O grande mestre, entretanto, mandou-o de volta para a floresta, para ouvir tudo mais que fosse possível. Intrigado e confuso, o príncipe voltou, sem entender o novo pedido. Por longos dias e noites sentou, em grosso tronco caído, solitário e pensativo na floresta. Seus ouvidos, atentos, sem nada conseguir de um novo singular. Certa radiosa manhã, no clarear entre as árvores, começou a discernir alguns sons vagos, diferentes de tudo que ouvira antes. Quanto mais atenção prestava, mais límpidos os sons se tornavam. Sem pressa, embriagado de certa magia, passou horas e horas ali, escutando pacientemente. Desejava sagrar a certeza de que estava no caminho certo. Retornou ao sagrado templo. Contou ao mestre que quando prestou mais atenção pôde ouvir o místico inaudível: o som das flores se abrindo, do sol aquecendo a terra e a grama bebendo o orvalho da manhã! O sábio mestre, percebendo a evolução espiritual do discípulo, acenou com a cabeça, em sinal de aprovação. Ouvir o inaudível é ter a disciplina necessária para ser tornar um grande líder. Observou o grande mestre. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos e as queixas silenciosas, um líder pode inspirar confiança a seu povo, entender o que está errado e atender às necessidades dos seus governados. Esta pandemia derrotou a todos. A desigualdade social acentuada, que assola este rico Brasil, mostrou suas feridas mais alarmantes e profundas. Não importa. Este povo já deu exemplos de que suporta impassível a inúmeras mazelas. O Brasil possui território, riquezas minerais, economia forte, exemplar agronegócio e mão de obra suficiente para nos alavancar. Aqui, neste grande entusiasmo, se concentra a nossa pálida esperança. Que nossos líderes coloquem-se à frente de sua gente, como símbolos vivos, dos que têm fome e sede de justiça. A tragédia do vírus talvez nos deixa uma grande lição de vida. Peço, por favor, um minuto de silêncio. Precisamos mais do que nunca, ouvir os sons inaudíveis do coração.

GUARACI ALVARENGA é advogado.


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