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Velho não está com nada!

José Renato Nalini | 13/10/2019 | 05:00

Uma das características desta nossa era é um certo menosprezo à velhice. A despeito da falácia da ‘melhor idade’, sabe-se que a velhice é um naufrágio. O corpo não responde com idêntica presteza aos comandos da mente. Mesmo esta, rateia e falha. Memória oscilante, consistente para as lembranças antigas, deficiente para o passado recente.

Sabe-se que a alternativa à velhice não é muito melhor. Morrer jovem. Deixar de fruir desta dádiva gratuita, à qual nem sempre emprestamos o devido valor. Acordar, enxergar, respirar, andar. Pensar e percorrer o infinito das divagações. Amar, esquecer, voltar a amar. Estimar e depreciar. Fantasiar! Espaço mágico e de infinitas possibilidades.

O mundo é outro e muito diferente do que se pensava. Por sinal, exercício de futurologia é inócuo. Sabe-se que tudo será distinto do que foi um dia. Só não se sabe como será. A ficção científica restou superada pelos avanços científicos e tecnológicos 

A juventude está inebriada com as redes sociais e suas potencialidades. A cada momento, uma funcionalidade nova. Automação, comunicação online com visual, performance auditiva e, daqui a pouco, olfativa e gustativa. Os sentidos são estimulados pelas inovações. Inovar é a palavra campeã de nossos dias.

Velho nem sempre inova. Velho pensa no passado. Vive no passado. Fala ‘no meu tempo’, sempre com saudades. Diálogo difícil, quando não impossível. A hostilidade à ancianidade é uma das mais detectáveis pela ‘wokeness’. É um verbete atual, empregado para a ideia de estar alerta, vigilante, em relação às injustiças sociais.

O idoso, por sua faixa etária, não sabe o que é ‘wokeness’. Não consegue se queixar. Se o faz, isso é considerado sinal de Alzheimer, demência senil, esquizofrenia tardia ou o que se chamava, ‘no meu tempo’, caduquice. Mas ele precisa saber que, pelo menos formalmente, o ordenamento jurídico o protege. É a tendência ‘ageism’, outra palavra para designar atos ou expressões discriminatórios contra os mais velhos.

Temos experiência. Saibamos aceitar os arroubos juvenis. Isso passa com a idade. Deus permita que eles cheguem às décadas que nós percorremos, com vicissitudes e intempéries, sim. Mas com alegrias que só nós experimentamos.

JOSÉ RENATO NALINI
é Reitor da Uniregistral, docente
da Pós-Graduação da Uninove
e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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