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Vencidos e extintos

Da Redação | 09/07/2020 | 05:56

Confesso a minha perplexidade. Um cadáver a cada minuto. Colapso na saúde pública em vários estados. Pressão por reabertura de todas as atividades que foram interrompidas no confinamento “meia-boca” e muito diferente daquele verificado no primeiro mundo.

Há lugar para ainda se pensar em extermínio total da floresta, soltar a fúria da boiada destruidora, envenenar o território com a baciada liberatória de regras de proteção da biodiversidade?

Faz sentido falar-se em eleição convencional, com a requisição de prédios, trabalho forçado de cidadãos que permanecerão à disposição dos eleitores que se arriscarem a uma temível aglomeração?

Não é surreal manter-se o fundo partidário em lugar de saciar a fome dos excluídos? Ou de reduzir os recursos do Bolsa Família para fazer propaganda do governo? Incentivar o uso massivo de armas, quando não há lugar para encomendações de corpos e para velórios?

São seres humanos os que se aproveitam da pandemia para a tradicional prática da corrupção e do desvio de verbas do Erário? É civilizado pretender democracia com o uso da violência? Ou de exigir cessação de racismo com vandalismo e pancadaria?

Será que o Apocalipse chegou com várias faces, não apenas a peste, mas uma contaminação do que resta de consciência, para enlouquecer uma parte da sociedade e emburrecer a outra?

A despeito do horror, os bem-pensantes, interessados em seus bunkers morais, continuam a negociar suas metas. Tornam atualíssimo o poema de Primo Levi : “Sentem-se e negociem/À vontade, velhas raposas prateadas/Vamos emparedá-las num palácio esplêndido/Com comida, vinho, boas camas e fogo/Aqui fora, no frio, esperaremos nós/O exército dos mortos em vão/Ai de vocês se saírem em desacordo/Serão esmagados pelo nosso abraço/Somos invencíveis porque vencidos/Invulneráveis porque já extintos”.

Quantos os brasileiros foram vencidos e extintos pela peste e quantos o serão pela insensibilidade que persistirá?

A História convocará os milhares – ou milhões? – de mortos, anônimos, mas indivíduos irrepetíveis, que amaram, tiveram famílias, sonharam e foram engolidos pela banalidade da morte. Convocará sua ausência e o vazio que deixaram, para instalar o tribunal de julgamento dos que carregam variado espectro de culpas.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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