Opinião

Vender não. Mas por que não arrendar?


Há dias, jornalista da FSP escreveu instigante artigo sobre a venda da Amazônia. Partiu daquela proposta de Trump de comprar a Groenlândia, logo repudiada pela Dinamarca. Ironia, sarcasmo e laconismo nesse texto que alinhava algumas vantagens. Para grande parte dos brasileiros, a Amazônia só serve mesmo para ser queimada, virar lavoura de soja, depois cana-de-açúcar, em seguida pasto e, finalmente, deserto. Estes não sentiriam a venda. Ao contrário, receberiam dinheiro para satisfazer a "aura sacra fame", a insaciável fome por dinheiro. Evidente a inviabilidade do projeto. Nunca seria levado a sério, sob a invocação do candente grito "A Amazônia é nossa!". O verbete "soberania", tão em voga entre os que não acordaram para o mundo cativo da Quarta Revolução Industrial, seria pronunciado milhares de vezes. Elimine-se, portanto, a hipótese de alienação da Amazônia. Mas por que não arrendá-la? Antes da saraivada de críticas, pensemos na hipótese de exigir das Nações assustadas com o recrudescer do desmatamento, a partir de incêndios, grilagens, devastação e outras práticas, um pesado investimento que fizesse pela região aquilo que não conseguimos fazer? Estamos dizimando a maior reserva florestal dos trópicos antes de conhecer o que ela representa em termos de aproveitamento da biodiversidade, antes de catalogarmos as milhares de espécies vegetais e animais, que condenamos à extinção previamente ao seu batismo científico. Vozes isoladas propõem que se cobre do mundo inteiro pela conservação desse imenso território regulador do clima continental e cujo desaparecimento causará morte, depauperamento humano e ambiental e intensificação da indigência brasileira em inúmeros aspectos. Admitir essa participação do mundo civilizado, mediante polpudo pagamento, resolveria muitos dos graves problemas pátrios. Pense-se na figura jurídica que não precisa ser "arrendamento", o que causa calafrios nos empedernidos nacionalistas, mas numa fórmula palatável de receber o dinheiro cuja oferta o pobre arrogante não hesita em recusar. Quando o Brasil está numa crise tremenda, com milhões de desempregados e outros milhões mergulhados na miséria, por que esse orgulho besta que procura negar a evidência? JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e autor de "Ética Ambiental", 4ª ed., RT-Thomson Reuters. [caption id="attachment_19217" align="aligncenter" width="1000"] Foto: Divulgação[/caption]

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