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Vinho, política e rolha

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 06/08/2019 | 07:30

Os assuntos a que mais me dediquei a tratar aqui no JJ estão ligados à cotidianidade da política nacional, em perspectiva republicanamente crítica. Assim espero continuar fazendo. Mas devo dizer que isso cansa. E cansa porque as lambanças são frequentes, com matéria prima inesgotável. Como escrevo neste espaço às terças-feiras, em rodízio quinzenal como dileto Fábio Sorge, deixarei com ele a peteca das análises políticas para, vez ou outra, dar-me à inflexões mais prazerosas.

É que entre a política, rotineiramente intragável, e o vinho, que por pior que seja sempre será tragável, fico com a rolha que quase tudo pode vedar, se é que me faço entendido… Explicarei o motivo.

Alguns apreciadores de vinhos são vítimas de um mito: o de que a garrafa dessa bebida, quando vedada com rolha, traz um líquido melhor do que quando a vedação é feita com a tampa de rosca, também chamada de “screwcap”. Mas isso, podem acreditar, não passa de um preconceito. Não será a rolha ou a “screwcap” que ditará a qualidade do vinho.

Tradicionalmente a rolha é feita de cortiça, que nada mais é do que a casca do tronco de uma árvore, um carvalho chamado “sobreiro”. Existem em abundância na Península Ibérica e são cultivados exatamente para esse fim. Após plantados, levam mais de vinte anos para começar a produzir a casca, que após retirada demora por volta de nove anos para se refazer. Trata-se de matéria prima que não existe em abundância na natureza e requer um tempo para sua renovação. Logo, será um produto mais caro.

Além disso servirá para vedar os vinhos que tenham potencial de envelhecimento. Viabiliza aquilo que os especialistas chamam de “micro-oxigenação”, permitindo que a bebida siga evoluindo na garrafa com o passar dos anos. O vinho, assim como a cerveja, é um produto alimentício perecível, ainda que em alguns casos seja destinado a uma vida longa dentro da garrafa.

Existem ainda as rolhas feitas com aglomerado de restos de cortiça, as rolhas sintéticas, algumas até coloridas, e até mesmo rolhas de vidro!

Ao lado dessas temos a “screwcap”, que são utilizadas em vinhos produzidos para serem consumidos jovens. Se não foram feitos para ficar anos e anos engarrafados, não haverá necessidade da micro-oxigenação que as rolhas de pura cortiça proporcionam.

Há outros motivos para que vinícolas e vinhateiros optem por qualquer dessas formas de vedação da garrafa. Mas o certo é que não será a rolha ou a tampa de rosca que determinará que a nobre bebida seja melhor ou pior. Prove e descubra!

Diferentemente da política, o vinho não cansa. Ao contrário: descansa.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é Advogado. Professor da FADIPA. Presidente para o Brasil do IPDP. Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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