Opinião

Viver é desaprender

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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Vou passar ao largo da desconstrução da filosofia francesa, da disrupção da Quarta Revolução Industrial e de outras sofisticações. Apenas baseado em uma experiência pessoal, pouco analisada, mas que ressurgiu com o isolamento da covid-19. Quando nasci, na casa de meus avós paternos, à rua Rangel Pestana, onde meu nono havia construído um grande solar e mantinha verdadeira chácara, a vida ali parecia uma autarquia. Havia moenda para o trigo que vinha em grãos, da Argentina, em grandes sacas despachadas pela família de minha nona, que residia em Mendoza. Com esse trigo fazia-se o pão. Eram fornadas que abasteciam a família por uma semana, guardados num grande armário cujas portas não impediam ventilação. Não eram vedadas com madeira maciça. Serviam-se de telas, algo muito comum nas cozinhas da época. O café era plantado ali, colhido e torrado e depois moído em moedores artesanais. Os porcos garantiam carne para longa temporada. Toucinho e banha atendiam à culinária. Verduras e frutas à vontade. Utilizava-se de mel em abundância, com as colmeias que garantiam também a polinização. Os filhos de famílias italianas eram acostumados a qualquer labor. Profissionais polivalentes, como meu pai. Cursou a Escola Bento Quirino, em Campinas. Formou-se modelador. Mas exercitava os ofícios da madeira com maestria. E era também eletricista, encanador, pintor, pedreiro, desenhista. Sem descuidar de dominar a cozinha, a faxina e todos os afazeres domésticos. Raramente precisamos de profissionais para o dia a dia de uma casa. Como se explica o fato da terceira geração - eu nela - não saber pregar um prego, consertar encanamento entupido, trocar a fiação, para tudo depender de técnicos? Somos dependentes e condicionados a um consumo impulsivo, viemos acabar muito longe do ideal autárquico. Seres humanos que desaprenderam, também desistiram de fazer com que sua vontade seja respeitada pelo Estado. Acostumamo-nos com o “Estado babá”, que nos considera sem imputáveis e com certa razão. Será que acertamos quando investimos numa educação essencialmente teórica, afastando as novas gerações de um conhecimento que era produzido pelas antigas e sólidas famílias, em praticamente tudo autossuficientes? É bom que reflitamos a respeito.  

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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