Opinião

Você é capaz de perdoar?

Ouve-se muito estes dias que há condutas imperdoáveis. Aquelas dos que não se comovem com as milhares de mortes causadas pela covid-19, dos que se aproveitam da crise para continuar a fazer negócios escusos, dos que só pensam em si, incapazes de qualquer sensibilidade em relação ao próximo. Enfim, o perdão está na ordem do dia. Para nós, cristãos, perdão foi um conceito sempre presente no discurso. "Pai, perdoai-lhes! Não sabem o que fazem!". Será que esse perdão seria estendido para os praticantes de atos abomináveis, alguns dos quais exemplificados acima? Um filósofo que analisou o perdão sob um prisma original foi Jacques Derrida (1930-2004). Para ele, o perdão não integra a ordem política ou jurídica. Não há simetria entre punir e perdoar. Nem se confunde o perdão com a anistia ou a prescrição. Paradoxalmente, só é possível perdoar o imperdoável. O perdão é insuscetível de ser trivializado. É sempre algum excepcional. Ele passou a sustentar essa opinião após constatar o que ele chamou de "mundialização do perdão". O mundo assistiu a um contingente imenso de pedidos de perdão. A Igreja pediu perdão por seus julgamentos injustos, pela perseguição aos que pensavam diferente, pela omissão durante os conflitos mundiais. O Japão pediu perdão aos coreanos e chineses. O governo da Bélgica se desculpou por ter se omitido em relação ao genocídio em Ruanda. Não faz sentido, para Derrida, que o perdão seja pedido por governos, entidades, igrejas, etc. A proliferação de cenas de arrependimento e pedidos de perdão exterioriza a urgência universal da memória. Relativiza o passado. Fatos mal digeridos ocasionam remorso, outra palavra conhecida dos monoteístas. Somos exigentes quando se trata de exigir retratação por parte de quem nos ofendeu. Somos módicos se viermos a necessitar de pedir perdão. Nem sempre nos satisfazemos com o brocardo "errar é humano; perdoar é divino". Não somos deuses, muito longe disso. Todavia, diante do que acontece no Brasil de hoje, você teria condições de perdoar aqueles que, no seu entender, erraram? Quem perdoa é capaz de amar. Foi a última lição de Derrida. Já prestes a morrer, em 2004, esteve no Rio de Janeiro e falou sobre o perdão. Para ele, o perdão não precisa ter qualquer finalidade, pois seus laços essenciais o unem ao amor.   JOSÉ RENATO NALINI é advogado, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras, gestão 2019-2020.

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