Polícia

Em Jundiaí, 77% das vítimas dos casos de estupro são crianças

SUBNOTIFICAÇÃO Número de casos de estupro reduziu em 2020, porém, segundo o Ministério Público, isso se deve à falta de denúncias devido à pandemia da covid-19


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Ações previstas para ajudar a coibir a violência contra a mulher na cidade
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O número de casos de estupro registrados em Jundiaí reduziu quase 23% em 2020, comparado com o ano anterior. Apesar disso, crianças ainda são as principais vítimas: quase 77% dos casos foram de estupro de vulnerável.

O que preocupa o Ministério Público é a desconfiança de que os casos estão sendo subnotificados em decorrência da pandemia. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), que divulgou essa semana o total de ocorrências registradas em dezembro de 2020, finalizando as estatísticas mês a mês durante todo o ano.

Procurada, a Delegacia da Mulher de Jundiaí (DDM) não se posicionou até o fechamento desta edição.

DADOS

Até antes da pandemia, o número de casos de estupro vinha crescendo vertiginosamente no país. De acordo com o 14º Anual de Segurança Pública, a cada 8 minutos uma pessoa foi estuprada no ano de 2019. O relatório do fórum aponta um aumento considerável, já que em 2015 a estatística apontava um estupro a cada 11 minutos. "Foram 66.123 boletins de ocorrência de estupro e estupro de vulnerável registrados em delegacias de polícia apenas no ano passado", informou o relatório do fórum.

No entanto, segundo o Ministério Público, essa queda no número de casos, principalmente de estupro de vulneráveis, é um reflexo da pandemia, reduzindo o número de denúncias ao dificultar o acesso. A conclusão é de um relatório feito pelo MP-SP (Ministério Público de São Paulo) em parceria com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o Instituto Sou da Paz.

O estudo concluiu que a pandemia da covid-19 dificultou as denúncias porque 84% dos registros de estupro de vulnerável feitos no primeiro semestre do ano no estado aconteceram dentro de casa. Isso leva a crer que a suspensão das aulas e o período de isolamento social criaram uma realidade de menos vínculos de confiança das crianças com adultos fora de casa, o que dificulta as denúncias. "Nossa hipótese, de que os estupros não diminuíram, mas as denúncias sim, leva à triste constatação de que há um grande número de meninas e meninos que foram ou estão sendo vítimas de violência sexual, ocultos pela ausência das denúncias", afirmaram as entidades em um documento oficial.

O 14º Fórum Nacional de Segurança Pública também acredita que haja subnotificação e mesmo antes da pandemia. "Há anos chamamos a atenção para a imensa subnotificação que cerca o fenômeno, fruto do medo, sentimento de culpa e vergonha com que convivem as vítimas, medo do agressor e até mesmo o desestímulo por parte das autoridades", relataram.

NÚMEROS

Mesmo com a provável subnotificação das ocorrências, em Jundiaí vulneráveis foram vítimas em 77% dos casos. De 72 vítimas, 55 eram crianças, pessoas com deficiência ou que não podem oferecer resistência por outra causa ou condição de vulnerabilidade, como embriaguez.

Dados do Ministério da Saúde também apontam que pelo menos 40% das crianças vítimas de estupro já haviam sido abusadas antes de denunciar, justamente porque 68% dessas agressões ocorrem em casa e têm o pai (12%), o padrasto (12%) ou outra pessoa conhecida (26%) da como abusador.

Durante todo o ano de 2020, a Delegacia da Mulher de Jundiaí prendeu 162 pessoas em flagrante, quase 30% a menos do que em 2019. Por outro lado, a especializada instaurou 676 inquéritos policiais, apenas quatro a menos do que no ano anterior.

ALERTA

A pediatra Mônica Franco, do Hospital Universitário de Jundiaí, alerta para o fato de que a violência contra a criança pode ocorrer em diversos espaços, incluindo a própria casa e até mesmo a internet. "O abuso infantil é toda forma de violência, maus tratos, negligência ou tratamento negligente, exploração comercial, sexual ou outro tipo de exploração que resulte em dano potencial à saúde, à sobrevivência, ao desenvolvimento ou à dignidade da criança. Pode acontecer em casa, nas escolas, em seu entorno e no ciberespaço", explicou a médica.

Para ela, é importante que todas as pessoas se mantenham atentas aos sinais de violência, sexual ou não, contra crianças e denunciem. "Precisamos redobrar as atenções com relação aos nossos pequenos e procurar denunciar e resolver o problema o quanto antes", completou.

O QUE FAZER

Denúncias podem ser feitas pessoalmente, em qualquer delegacia, ou mesmo acionando a Polícia Militar (190) ou a Guarda Municipal (153). Mas se pedir ajuda de forma declarada não é uma possibilidade, as denúncias também podem ser feitas anonimamente pelos Disque 100. A ligação é gratuita e o canal funciona 24 horas por dia.


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