Polícia

Em Jundiaí, população "não mete a colher" para salvar as mulheres

MARIA DA PENHA Corrente nas redes sociais pede que as pessoas interfiram em casos de violência doméstica, mas precisa expandir em Jundiaí


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Patrulha considera que denúncia ainda é um tabu para a sociedade
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Nos últimos dias a corrente 'em briga de marido e mulher se mete a colher sim' tem tomado conta das redes sociais. De acordo com a equipe do programa Patrulha Maria da Penha, da Guarda Municipal de Jundiaí, a intervenção de terceiros em casos de agressão ainda é um tabu e a maioria dos homens prefere não se envolver.

Para o Núcleo de Atendimento e Acolhimento à Mulher (Naamu), a principal dúvida da população é quanto à diferença entre canal de emergência e de denúncia.

A gota d'água para que o debate se tornasse acalorado na internet foi a divulgação de imagens das agressões do Dj Ivis contra a ex-mulher, a influencer Pamella Holanda. Nas imagens chocantes um homem está ao lado do famoso Dj e não interfere na situação.

Em Jundiaí, ainda são poucas as situações em que há intervenção. "As mulheres são mais propensas a ajuda, principalmente se presenciam uma agressão. Nesses casos costumam acionar a GM ou outra força de segurança para ajudar. Já os homens tendem ou a apenas conter o agressor e depois ir embora, sem fazer denúncia, ou não se meter", avalia o GM Danilo José de Oliveira, um dos membros da Patrulha Guardiã Maria da Penha.

Segundo ele, a conscientização vem ocorrendo, porém a passos lentos. "O que já aconteceu algumas vezes foi de um vizinho, parente ou amigo da vítima denunciar, até mesmo usando o anonimato. É por isso que campanhas são importantes, justamente para que haja essa conscientização."

Um desses casos é de uma mulher que procurou a Guarda Municipal porque sabia que a amiga estava sofrendo agressões. O maior medo da vítima era a denúncia não ter frutos e as agressões piorarem, a ponto de correr risco de morte. Com as orientações da GM, ambas procuraram ajuda e conseguiram uma medida protetiva, afastando o companheiro agressivo da vítima.

COMO DENUNCIAR

Para a coordenadora do Núcleo de Atendimento e Acolhimento à Mulher, Andreia Melo, a maior dúvida das pessoas é quanto à forma correta de denunciar. "É importante saber quando usar cada canal. Os telefones de emergência, como 153 ou 190, devem ser acionados quando você está presenciando algo naquele momento, ou ouviu uma vizinha gritar, qualquer coisa que indique um risco iminente", explica.

Já os canais de denúncia podem ser utilizados a qualquer momento. "Se você tem conhecimento de que alguém tem sofrido agressões ou apenas desconfia que algo esteja errado porque viu a pessoa com algum machucado, é possível denunciar pelo telefone 180, de denúncias", acrescenta.

Essas denúncias podem ser feitas em anonimato e são encaminhadas aos órgãos competentes. "É uma forma de preservar sua identidade, mas ajudar, já que toda denúncia feita é investigada."

Procurada, a titular da Delegacia da Mulher de Jundiaí recusou-se a dar entrevista e informar dados de casos de violência doméstica registrados esse ano, em Jundiaí e Região. Em todo o estado, foram registrados mais de 50 mil casos de violência contra a mulher de janeiro a maio deste ano.

APOIO

Diariamente a Patrulha Maria da Penha circula em todos os bairros de Jundiaí verificar a residência das 183 mulheres com medidas protetivas ativas no município. "Também mantemos contato por WhatsApp ou telefone com as assistidas", diz Danilo.

Uma vez no programa, elas são encaminhadas para assistência social e psicológica. O Núcleo de Referência ao Atendimento da Mulher, da Defensoria Pública de São Paulo, mantém uma cartilha de como devem proceder esses acompanhamentos multidisciplinares e também uma listagem com as cidades onde já existem Centros de Referência à Mulher.

Em Jundiaí, embora haja uma rede de atendimento, não existe um Centro de Referência específico. Nesse caso, a orientação da Defensoria Pública é procurar um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), caso a mulher não esteja inserida no programa da GM, nem tenha tido qualquer outro encaminhamento.

Em nota, a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS) lembrou que "Jundiaí é um dos poucos Municípios a possuir o serviço da 'Casa Sol', equipamento destinado a abrigar de mulheres vítimas de violência em situação de ameaça de morte". No local, as vítimas podem ficar isoladas por até três meses, até que a Justiça e as forças policiais consigam proceder com a garantia de segurança.

Informaram, ainda, que dentro do Creas existe o serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI) Mulher, que "visa construir com a vítima o entendimento sobre o tipo de violência e elabora ações para o fortalecimento das condições da vítima, bem como estratégias para a sua emancipação".

A UGADS mantém ainda iniciativas com foco também no agressor para o rompimento de ciclos de violência. "Uma delas é o "Por Onde Andei", realizado de modo virtual às terças-feiras, das 17h às 18h30."

Suspenso por conta da pandemia, a Prefeitura também realizava desde novembro de 2017 o programa "Voz da Consciência" com detentos que cumprem pena por violência doméstica no Centro de Detenção Provisória (CDP) "Marcos Antônio Alves Bezerra". A iniciativa resultou em convênio firmado pela Prefeitura com a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Sap). De acordo com o CDP, a reincidência de detentos pelo mesmo crime, que era de 40% até antes do programa, caiu para zero a partir de sua realização.


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