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Etiópia se firma como principal rota do tráfico que passa por Guarulhos

Em 45 (31%) das 143 apreensões realizadas de janeiro a outubro deste ano pela PF os passageiros tinham destino final a principal cidade do país, a capital Adis Abeba


Arquivo; Polícia Federal
Campinas/SP – A Polícia Federal deflagrou nesta manhã (6/10) a Operação Overload, para reprimir uma complexa organização criminosa, com ramificações em diversos estados do Brasil e no exterior, voltada ao tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. A principal base de atividades do grupo criminoso é o Aeroporto Internacional de Viracopos.
Crédito: Arquivo; Polícia Federal

Dados das apreensões da Polícia Federal neste ano no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (Grande SP), indicam que a rota do tráfico de drogas foi intensificada para a Etiópia.

Em 45 (31%) das 143 apreensões realizadas de janeiro a outubro deste ano pela PF os passageiros tinham destino final a principal cidade do país, a capital Adis Abeba.

"Não era uma rota muito comum até porque existem outras por lá. É um país problemático, sempre em estado de guerra civil, e que talvez por isso eles [traficantes] venham a pensar que o controle seja menor por lá", afirmou Guaracy Mingardi, analista criminal e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A rota de voos São Paulo-Adis Abeba foi uma das poucas mantidas em Cumbica na fase mais aguda da pandemia. A maior parte das apreensões de drogas para esse destino ocorreram justamente entre os meses de janeiro a abril deste ano, fase em que o Brasil registrou a maior parte dos casos e mortes por covid-19.

"Essa rota foi uma das primeiras em que a gente teve redução de restrições e de circulação de viajantes. Como não se poderia voar diretamente para a Europa e brasileiro não poderia viajar para lugar algum, optou-se por voar para lá [Etiópia] usando integrantes das nacionalidades possíveis de entrar nesses países."

Em 2020, 51,1% de todos os detidos por tráfico internacional de drogas eram brasileiros, e 21,3%, africanos. Neste ano os africanos somam 38,6%, e os brasileiros, 41,2%. "Teve certo impacto devido à pandemia, com todas as restrições onde muitas vezes só os próprios nacionais poderiam ter acesso", diz Rodrigo Weber de Jesus, chefe da delegacia da PF em Guarulhos.

Parte dos africanos detidos é composta por refugiados que viviam no Brasil. "É gente desesperada por dinheiro, que veio para o Brasil, tentou e não conseguiu nada nesse período, porque diminuíram muito os empregos", diz Mingardi.

A busca por rotas alternativas de tráfico de drogas foi apontada em um relatório do Unodc (Escritório das Nações Unidas Sobre Drogas e Crimes). Segundo o texto, um dos motivos foi justamente a restrição a voos internacionais, o que obrigou os traficantes a encontrar novas rotas terrestres e marítimas.

REPRESSÃO
De tempos em tempos as rotas do tráfico de droga mudam. Com elas, mudam também o perfil, idade e características das chamadas "mulas", as pessoas aliciadas para o transporte da droga em troca de dinheiro.

"No passado víamos muito europeus, principalmente do leste europeu, houve uma determinada época que tínhamos muito venezuelanos, africanos. Quando se começa a ter uma determinada rota e o consequente aumento da repressão, obriga os traficantes a uma espécie de mudança", afirma o delgado da Polícia Federal Rodrigo Weber de Jesus, chefe da corporação em Cumbica.

Para tentar coibir o tráfico internacional de drogas, a PF coloca agentes à paisana circulando nos terminais para averiguar atitudes suspeitas. Apesar de não ser criado para esta finalidade, os aparelhos de raio-X são empregados para avaliar se existe algum material orgânico, que pode apontar a existência de drogas nas bagagens.

Outra forma de atuação é por meio de denúncias, segundo o chefe da PF em Guarulhos.

TRAFICANTES INOVAM
Os traficantes têm inovado para tentar traficar drogas para o exterior por meio de voos saindo de Guarulhos, escondendo o produto nos mais variados locais.

Apesar disso, a forma mais comum continua sendo os fundos falsos de malas de viagens. Quando isso acontece, o passageiro é chamado onde estiver e a sua mala é revistada na sua frente. Se confirmada a droga, ele recebe voz de prisão.

Nem sempre a droga está visível. Ela pode estar escondida em meio a vários produtos, inclusive pinga.
Foi o que aconteceu em 5 de abril deste ano, quando duas pessoas de nacionalidade brasileira tentaram embarcar para Doha (capital do Catar) com 4,7 kg de cocaína escondidas em garrafas de Ypioca. A mesma tática tentou ser usada ao menos outras duas vezes no mês de junho.

No dia 18 de abril, uma pessoa natural da Bolívia foi flagrada com 9 kg de cocaína dentro de embalagens de açaí e café verde. Um mês depois, em 18 de maio, uma brasileira foi presa após os agentes descobrirem que ela transportava 2 kg de cocaína em relógios de parede.

Nem livros infantis escapam da mira dos traficantes. Em 2 de setembro um nigeriano tentou embarcar para Guiné com 4,2 kg de cocaína em capas em capas de publicações destinadas às crianças. Um dos títulos era a versão da Turma da Mônica para o clássico de "O Mágico de Oz".

Alguns tentam apelar para a fé. No dia 28 de outubro, um passageiro natural de Guiné tentou ir para a Etiópia com 10 kg de cocaína dentro de velas religiosas.

A única apreensão em que a pessoa engoliu a droga para ser expelida depois ocorreu no dia 2 de julho, quando uma portuguesa tentou embarcar para o seu país natal com meio quilo de cocaína no estômago.


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