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Ataque em série clona celulares de 12 deputados da Assembleia de SP

FolhaPress | 16/05/2020 | 16:22

No último dia 8, um dos deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo avisou no WhatsApp para os demais que era melhor sair do grupo dos 94 parlamentares porque os celulares de Janaina Paschoal (PSL) e de outros colegas haviam sido clonados. A debandada foi geral -rapidamente o grupo foi desfeito e, uma semana depois, um novo grupo ainda não havia sido criado. Isso não impediu, porém, que o ataque atingisse ao menos outros 11 deputados.

A invasão em série, aplicada entre os dias 8 e 10, não teve ideologia: atingiu deputados de PSL, PSDB, MDB, PT, Novo, DEM e Republicanos. Também envolveu celulares de todas as operadoras. Alguns parlamentares recuperaram seus números e outros acabaram cancelando suas linhas. Os golpistas enviaram mensagens aos deputados se passando pelos colegas de plenário e fazendo com que eles também caíssem na fraude. Houve ainda mensagens com pedidos de ajuda financeira. Nenhum deputado, porém, chegou a fazer transferências de valores.

O caso intrigou os deputados da Assembleia e acendeu um alerta sobre sua segurança virtual, especialmente porque as sessões de votação acontecem online devido à pandemia do coronavírus. Não se sabe se a motivação foi política ou se houve apenas um golpe comum. Alguns parlamentares já procuraram a polícia para investigação.

“Foi bobagem minha”, admite o líder do governo João Doria (PSDB) na Casa, Carlão Pignatari (PSDB). O deputado não possuía a verificação em duas etapas do WhatsApp, mecanismo de segurança em que o usuário tem uma senha a mais. “Eles, se passando pelo deputado Marcos Zerbini [PSDB], me enviaram uma mensagem falando que iam criar um novo grupo com os deputados e me pediram um código enviado para o meu celular para que eu entrasse no grupo. E eu mandei”, conta.

Pignatari caiu num golpe clássico e sofisticado de sequestro de conta de WhatsApp –acabou enviando, no sábado (9), aos bandidos o código para acessar seu aplicativo em outros dispositivos. O tucano conseguiu reaver sua linha, mas ainda espera o restabelecimento do seu perfil no WhatsApp. O líder de governo acha que o ataque não foi político. “Foi quadrilha mesmo, esse pessoal de cadeia pra conseguir dinheiro”, disse.

Seu colega Heni Ozi Cukier (Novo), também vítima, não tem tanta certeza. “Acho estranho que um grupo de deputados seja atacado aleatoriamente. Não descartaria numa investigação a existência de intenções politicas.” O deputado chamou o ataque de assustador e perigoso. Para ele, os deputados terão que tomar mais cuidado. “Não sei se sou a favor da existência desses grupos de WhatsApp mais. Dão acesso a uma lista completa de números.”

Contatos do deputado Rodrigo Moraes (DEM) receberam mensagens dos criminosos fingindo ser ele. “Tudo bem? Gostaria de te solicitar um favor. Você usa Banco do Brasil ou Itaú pelo aplicativo do celular ou computador?”, dizia a mensagem. Às 14h40 do dia 8, Moraes fez uma live informando que estava sem acesso ao WhatsApp e também não conseguia fazer ligações.

Afirmou que era o quarto deputado com esse problema e alertou para que as pessoas desconsiderassem mensagens vindas dele. Algumas já tinham feito depósito. “Não estou conseguindo mandar mensagem pra todo mundo, são mais de 5.000 contatos que eu tenho no WhatsApp. Esse bandido pegou meu número e começou a mandar mensagem pedindo dinheiro no meu nome”, disse. Ele acabou trocando de linha.

Duas horas mais tarde, foi a vez de Janaina avisar pelo Twitter que seu WhatsApp estava travado: “Amados, por cautela, informo que, no meu WhatsApp, apareceu a mensagem de que meu número foi cadastrado em outro aparelho”. “Oh, pessoal, não foi só o WhatsApp. O número do telefone também foi subtraído. Não consigo ligar nem atender ninguém”, tuitou em seguida.

Janaina também acabou trocando de número. “Amados, já cancelei a linha. Mas alguns contatos meus estão recebendo pedidos de depósitos bancários. Peço, por favor, que desconsiderem qualquer mensagem que saia do meu número”, postou. O golpe com Cukier, do Novo, ocorreu quando criminosos ligaram para sua operadora pedindo mudança de plano e instalando o número em um novo chip, o que deixou o telefone do deputado sem linha e com aplicativos inoperantes.

O mesmo aconteceu com Paulo Fiorilo (PT) e Gil Diniz (PSL), mas os três conseguiram recuperar suas linhas. “Fiquei sem telefone um dia inteiro. Entrei em contato com a equipe de segurança da operadora e eles resolveram, ajudaram na transição do WhatsApp para que eu não perdesse nada. E ajudei o deputado Ricardo Mellão [Novo], que também foi vítima”, diz Cukier.

Para a deputada Letícia Aguiar (PSL), a invasão do celular foi um transtorno. Ela tinha o mesmo número de telefone havia dez anos e também recebeu relatos de que criminosos tentaram aplicar golpe financeiro se passando por ela. “É um sentimento de frustração e impotência. Hoje utilizamos a tecnologia a nosso favor, no nosso trabalho, mas a gente pode verificar que não é um ambiente seguro ainda”, afirma a deputada.

Ela já havia solicitado a convocação de representantes do WhatsApp no Brasil na Comissão de Defesa dos Direitos do Consumidor e afirmou que, quando a Assembleia retomar atividades presenciais, irá reforçar esse pedido para tratar de medidas de segurança do aplicativo.


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