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Família de menor que matou adolescente é expulsa do bairro

Geraldo Dias Netto . gnetto@jj.com.br | 20/12/2017 | 08:29

Moradores da rua Seriema, no bairro Cidade Nova 2, em Várzea Paulista, expulsaram os familiares do garoto de nove anos acusado de matar, no final da tarde de anteontem, o adolescente Daniel Rodrigues da Silva, 12, com golpes de madeira, socos e chutes. A porta do imóvel foi arrombada e, por pouco, a família, que residia ali havia aproximadamente um mês, não sofreu linchamento, tendo de deixar todos os móveis para trás.

Silva foi sepultado ontem em Várzea Paulista. Segundo parentes, ele tentou defender outra criança, de quatro anos, durante discussão com o garoto agressor, que estava acompanhado da irmã, de 14 anos. Além de pauladas na cabeça, o adolescente recebeu chutes e socos enquanto estava no chão, ao lado de um balanço improvisado onde os envolvidos brincavam, o que causou graves ferimentos em seus órgãos internos.

Tio de Silva, Luiz Carlos Rodrigues da Silva, 38, socorreu o sobrinho ensanguentado e conseguiu que um vizinho o levasse ao hospital. Segundo ele, o adolescente gostava de assistir futebol, de empinar pipa e esperava “ganhar do Papai Noel” um uniforme de seu time.

Durante registro do boletim de ocorrência, o garoto envolvido na morte chegou a alegar ter cometido a violenta agressão por um suposto “bullying” que sofreu ao ser chamado de “caolho”. Ele não informou se teve ajuda da irmã que o acompanhava, nem conseguiu explicar como pôde causar tantos ferimentos no outro garoto.

A alegação foi refutada pelos tios de Silva, que disseram não ter havido xingamento por parte do parente, mas sim a tentativa de defender a criança de quatro anos com quem o garoto agressor discutia.

Briguento
De acordo com o apurado pelo Jornal de Jundiaí no local do crime, o menino de nove anos era “bastante briguento” e “gostava de brincar agarrando o pescoço” de outros colegas.

Em determinada ocasião, foi visto usando uma faca em uma brincadeira e já teria discutido com filhos de outros moradores da comunidade, que se disseram revoltados com o ocorrido. “Quando o meu filho faz algo errado, eu cuido disso e tomo uma atitude pra que ele aprenda a não fazer de novo. Isso não acontecia com os pais desse moleque”, disse um dos moradores.

Já a tia de Silva, Tatiana Regina Martins, 38, que também ajudou a socorrer o sobrinho, contou que os pais do garoto agressor, ao serem informados do ocorrido, não demonstraram “nenhum sentimento”, o que revoltou ainda mais a comunidade.

Martelada
Segundo os parentes de Silva, os pais do agressor mudaram para o bairro após serem expulsos no Jardim São Camilo, em Jundiaí, onde moravam. O motivo seria a agressão contra um idoso, da qual o próprio menino de nove anos teria participado, dando uma martelada nas costas do desafeto de seu pai.

“Sei que ele é uma criança, mas nada justifica essa violência toda. Quando meu marido pegou meu sobrinho nos braços, ele sangrava muito, porque já estava com ferimentos nos órgãos internos”, disse Tatiana.

Já o tio mostrou o shorts que Silva usava, bastante manchado de sangue. Segundo autópsia feita no Instituto Médico Legal (IML), o garoto morreu em decorrência de um traumatismo craniano.

Investigações
De acordo com o delegado de Várzea Paulista, Marcel Fehr, por se tratar o agressor de uma criança, nenhuma medida restritiva de liberdade poderá ser tomada, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Tal norma também garante que nenhuma criança é autora de crime ou mesmo de ato infracional, conduta delituosa relacionada a adolescentes. Com exceção da restrição da liberdade, que se traduz em custódia em unidades como a Fundação Casa, menores como o agressor da rua Seriema podem sofrer outras medidas socioeducativas, como tratamento com psicólogos ou psiquiatras.

Ontem, o JJ tentou contato com a Vara da Infância e da Juventude de Várzea Paulista. Uma mulher que se identificou como escrevente se negou a passar a ligação ao responsável pelo Juízo responsável por julgar menores infratores, alegando correr o caso em segredo de Justiça – apesar de a reportagem já ter detalhes sobre o ocorrido e buscar outro tipo de informação -, a funcionária pública se negou a ouvir a exata solicitação e também afirmou que estava bastante atarefada.


Link original: https://www.jj.com.br/policia/familia-de-menor-que-matou-adolescente-e-expulsa-do-bairro/
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