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Inocente, motorista acusado de estupro tenta retomar a vida ao lado da família

Fábio Estevam | 26/01/2020 | 07:00

Os dez dias de angústia e medo, que começaram com correntes de oração para a família do motorista de aplicativo acusado injustamente de estupro em Jundiaí, terminaram da mesma forma: com agradecimentos a Deus. Religiosa, a família de Rodrigo de Souza, de 37 anos, foi a responsável por reunir provas e subsidiar a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que foi a campo. Depois de investigar e confrontar a denunciante, uma jovem de 18 anos, a especializada conseguiu sua confissão de que estava mentindo, fazendo justiça para ele, que é casado e tem uma filha de dois anos. “Nós passamos momentos muito ruins e tristes. Apesar de confiar em Deus, por muitas vezes me peguei pensando que, se fosse preso por esse tipo de crime, não sobreviveria dentro de uma cadeia”, lamentou ele.

Temendo represálias de pessoas que ainda não tenham conhecimento sobre sua inocência, Rodrigo procura ainda não sair na rua. Inclusive abandonou o serviço de motorista, que fazia apenas aos domingos para ajudar no complemento da renda familiar, e estuda a possibilidade de vender sua casa e se mudar de Jundiaí. “Eu recebi muitas ameaças, de que iria apanhar, de que iriam me pegar. Ameaças que foram colocadas em grupos de motoristas, motoboys… Amigos meus que estão nesses grupos iam me informando sobre essas ameaças, e também eram excluídos quando me defendiam. Eles me conhecem, sabem que eu não faria nada de errado, e por isso saiam em minha defesa”, comentou. “Mas com a publicação da minha foto e as inverdades, feita por amigos da mulher que me acusou e compartilhada por muita gente, fico com medo de que nem todos saibam que eu sou inocente. Tenho medo”.

Para provar a inocência de Rodrigo a família teve papel fundamental. “Nós pedimos que ele ficasse na casa de parentes até que tudo se resolvesse. Eu já sabia que ele era inocente, porque estava comigo no dia e horário apontado por ela para o dia do suposto crime. Então o jeito era reunir família e amigos e provar”, explicou a esposa, que pediu para não ser identificada.

Enquanto esposa, pai, irmão, mais familiares e amigos trabalhavam, Rodrigo perdia trabalho. Motoboy empreendedor, ele tem uma empresa que presta serviço de entrega para quatro farmácias. A principal delas, responsável pelo pagamento da maior parte do que ele ganha no mês, anunciou a quebra do contrato. “Eu mesmo comuniquei a farmácia sobre o que estava acontecendo e que precisaria ficar ausente, colocando um funcionário meu para trabalhar. Só que depois que o dono da farmácia viu no noticiário sobre eu ter o mandado de prisão, decidiram interromper o serviço. Foi triste, minha vida estava sendo prejudicada”.

 

Mas os dias foram se passando. Depois de várias noites sem dormir, refeições deixadas para trás e muito trabalho, a verdade veio a coroar a inocência. “Eu cristão e temente a Deus, jamais cometeria um crime. Fui acusado até de ter usado uma arma, sendo que nunca peguei em uma”, disse Rodrigo. “Foi muito triste ver policiais em nossa casa procurando por uma arma, cachorro farejando… algo totalmente fora de nossa realidade familiar”, complementou a esposa, que é professora, e que, orgulhosa, contou ao lado dele sobre o dia a dia da casa. “Nós tomamos café juntos depois de ele dar leite para nossa filha, almoçamos juntos quando temos tempo e jantamos juntos. Somos uma família feliz e unida.”

Após ver a publicação no Jornal de Jundiaí sobre a confissão de sua algoz e ser comunicado de sua inocência, Rodrigo saiu de onde ficou trancado por dez dias sem sair sequer na calçada, para ser recebido em seu lar por todos aqueles que o ajudaram. “Foi uma mistura de choro e risada, foi emocionante, nos ajoelhamos todos e fizemos uma grande corrente de oração de agradecimento a Deus”, lembrou ele. “E temos muito a agradecer também o benefício da dúvida que tivemos da delegada (Renata Yumi Ono, da DDM) e sua equipe, que nos tranquilizaram durante as investigações. Tudo o que eles iam pedindo, a gente fornecia”, comentou a esposa.

A verdade devolveu a ele, também, a possibilidade de voltar a trabalhar para a farmácia que havia quebrado o contrato de serviço. “Ele nunca acreditou em nada disso, tanto que mesmo depois da verdade aparecer, foi até a DDM dar seu depoimento. E me chamou de volta”.

Eles garantem não sentir raiva da jovem que inventou toda essa mentira, com o simples objetivo de chamar a atenção de sua namorada. Mas pedem que justiça seja feita e isso deve acontecer. Isso porque na conclusão do caso a delegada indiciou a jovem por falsa comunicação de crime, denunciação caluniosa e fraude processual.

O que aconteceu
A jovem procurou a DDM no dia 13 deste mês para denunciar um estupro que teria ocorrido dois dias antes, cometido pelo motorista. De acordo com ela, ele a abordou próximo de sua casa e, sob ameaça de arma de fogo, ordenou que ela entrasse no carro. Depois de dirigir por alguns metros, teria estacionado em frente a um terreno baldio, onde teria a estuprado dentro do carro. Depois, ainda segundo o falso depoimento, a deixou no local, onde ela pediu ajuda sendo socorrida ao Hospital Universitário.


Link original: https://www.jj.com.br/policia/inocente-motorista-acusado-de-estupro-tenta-retomar-a-vida-ao-lado-da-familia/
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