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Menina aceita ‘desafio’ macabro e tentar matar a própria família em Jarinu

GERALDO DIAS NETTO | 28/09/2018 | 20:25

A Polícia Civil de Jundiaí e Região está em alerta com um desafio macabro que põe em risco a vida de crianças, adolescente e seus familiares. É o “Charlie Charlie Challenge” (Desafio do Charlie Charlie), que levou uma menina de 12 anos, de Jarinu, a tentar matar os pais e a irmã, de apenas três anos, nesta semana, com veneno para rato.

De origem desconhecida – acredita-se que tenha surgido nos Estados Unidos -, o desafio compreende indagar, por meio de papel ou aplicativo de smartphone, supostos espíritos, que responderiam “sim” ou “não” a perguntas feitas pelos participantes sobre o futuro ou determinadas condutas a serem tomadas.

Seria uma variante do “brincadeira do copo”, comum em décadas anteriores, na qual um copo era colocado sobre um abecedário e se moveria, com ajuda de “entidades do além”, para formar palavras em resposta a perguntas dos mais variados temas, mas com a diferença de ser necessário ligar para um número, cujo interlocutor passaria desafios, conforme relato da menina de Jarinu.

Também se assemelharia ao “jogo da Baleia Azul”, fenômeno surgido em uma rede social russa que estaria relacionado com mais de cem casos de suicídio pelo mundo e que deixou, principalmente em 2017 – ano com mais relatos de casos -, pais e a polícia de diversos estados brasileiros em comoção com o atentado de inúmeros jovens contra a própria vida.

Chegou-se à hipótese de que tal ritual faria parte de uma antiga tradição mexicana relacionada com um “demônio de nome Charlie”, tese refutada por uma correspondente mexicana da BBC, María Elena Naves, conforme explica o site português “Aleteia”, uma vez que não haveria, na mitologia daquele país, divindade chamada “Carlitos” (Charlie em espanhol), mas apenas com nomes de povos ancestrais vindos dos astecas ou maias, como Tlaltecuhtli ou Tezcatlipoca.  Por outro lado, como destacou o delegado titular de Jarinu, Victor de Oliveira Paula, o Charlie Charlie seria ainda mais nocivo por colocar, além da vida do participante em risco, os próprios familiares da criança e do adolescente.

Depoimentos
Dona de casa de 32 anos, a mãe da menina de Jarinu disse que o veneno usado para matar a família foi colocado no café que ela fez e pediu para a filha adoçar. Após o marido beber e reclamar que algo estava estranho na bebida, ela contou que resolveu experimentar e verificou que o companheiro tinha razão. Jogou, então, o café fora e notou uma substância pastosa no fundo da garrafa que guardou para tentar descobrir posteriormente o que seria. Fez, em seguida, um novo café e deu para o marido, que saiu para trabalhar.

Desconfiada da filha, já que a menina adoçara a bebida, passou a questioná-la sobre o que teria sido misturado ao café. Após certa insistência, a jovem resolveu contar que havia jogado veneno de rato, pois pretendia matar os pais. O fato foi confirmado pela própria criança ao delegado Oliveira Paula. Para surpresa do experiente policial, disse ainda que colocara veneno no copo de suco de sua irmã mais nova, de três anos, na noite anterior, mas, arrependida e “com dó”, retirou o copo das mãos da menina antes que ela ingerisse a bebida com a substância mortífera. Tudo por conta do desafio “Charlie Charlie” que havia descoberto.

Amiga
Policiais da equipe do titular de Jarinu, durante as investigações, também descobriram quem havia dado o veneno para a garota, tendo ela dito, a princípio, que se tratava de um homem branco, alto e com os olhos claros, apresentado a ela por uma amiga, e depois que havia comprado em um supermercado próximo de sua casa. Contudo, os policiais conseguiram que a jovem revelasse a verdade, dizendo ela que uma amiga havia trazido o veneno de casa, uma vez que, no intervalo da escola, contou que pretendia matar a família e que, quando isso ocorresse, iria morar com a conhecida.

A amiga da jovem também prestou depoimento e confirmou a entrega, apesar de dizer em sua primeira versão não ter sido ela. Contudo, garantiu que, ao contrário do afirmado pela estudante, nunca soube que o veneno seria usado para matar os familiares da colega. De acordo com a polícia de Jarinu, o caso foi apresentado ao Ministério Público, que conseguiu a internação da menina em uma unidade de custódia para jovens infratores. Ela deve permanecer no local por 45 dias.

Psicóloga orienta sobre cuidados

A psicóloga Maria Isabel Gut, responsável pelo serviço de orientação educacional do Colégio Divino Salvador, diz que tem participado de muitos eventos relativos à prevenção da saúde e da vida e que essas situações são vistas como “doença silenciosa”.

“O que eu sinto sobre os cuidados que os pais devem ter com relação à vida de seus filhos são coisas básicas, como estar juntos, embora não fáceis no mundo de hoje, em que nossos filhos entendem muito mais de tecnologia do que nós mesmos. Talvez uma das coisas que eles saibam mais que os próprios pais é mexer com essa tecnologia”, avalia.

Por isso, afirma, é preciso que os pais tentem fazer atividades em que possam “esquecer” o celular ou o computador por um tempo e a família possa ter contato com a natureza, com shows, com exposições e com passeios que façam com que a família converse.

Ela alerta que não adianta os pais adotarem apenas uma vigilância punitiva. “Tem que ter uma vigilância que construa e que norteie os valores dessa criança, sabendo o que estão acessando, buscando aplicativos para controlar o que seus filhos estão vendo e com quem eles estão se relacionando nas redes sociais. Orientar a jamais aceitar uma pessoa na sua rede de relacionamentos que não seja conhecida, para que não acessem qualquer coisa que vejam”, destaca.

Segundo ela, é preciso prestar atenção nos sinais que os jovens dão no dia a dia, como o sinal do silêncio, do isolamento, da situação dele na escola quando começa a baixar suas notas, o desleixo consigo mesmo. “São vários sinais que nós podemos observar, mas acima de tudo é olhar dentro de casa se há uma recusa de contato, de estar junto a outras pessoas não fizemos”, explica.

Outra orientação da psicóloga para pais é recriar, de alguma forma, o “estar juntos”, ouvir os filhos e mostrar que eles podem falar sobre qualquer assunto. “Essa troca é muito boa e nós precisamos resgatar isso nos nossos jovens e nas nossas crianças. Não há outra forma de nós combatermos essa violência instalada se não for através do amor, da correção, de exercermos realmente o nosso papel de pai e mãe.”

Foto: Rui Carlos

Foto: Rui Carlos


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