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Região de Jundiaí registra 49 desaparecimentos em janeiro

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 22/02/2019 | 05:00

Só no primeiro mês de 2019, 49 boletins de ocorrência de desaparecimento de pessoa foram registrados na Região. Os dados são da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que atende as cidades de Jundiaí, Louveira, Cabreúva, Itupeva, Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista, Itatiba e Morungaba. A delegacia também levantou o número de BOs de desaparecimentos totais registrados em 2018: 520.

Apesar de ser um número grande, apenas 82 investigações foram instauradas. Isso porque a maioria das pessoas desaparecidas acaba voltando para casa entre 10 e 30 dias após o registro do BO.  “Eu diria que 90% dos desaparecimentos são voluntários, ou seja, são pessoas que foram viajar e não avisaram, ou saíram de casa por conflitos familiares, problemas com drogas, etc”, conta o delegado Ruiner Martins.

Antes de investigar mais a fundo, os funcionários da delegacia cruzam os dados do desaparecido para conferir se não há intercorrência com outros casos policiais. “Às vezes a pessoa foi presa e o familiar não sabe, por isso acaba registrando um desaparecimento”, explica.

Um novo contato com a família é feito antes de iniciar os trabalhos. Isso porque outro problema enfrentado pelos investigadores é a não comunicação do reaparecimento das pessoas. “Sabemos que a maioria volta, mas a família não avisa. Então infelizmente acabamos gastando nossos recursos e tempo dos funcionários procurando uma pessoa que já voltou”, lamenta o delegado.

Caso não seja encontrado nada, o boletim de ocorrência entra em um sistema online, disponível para todo o Estado, e a delegacia realiza inserção da fotografia da vítima, faz pesquisas no Banco de Dados da Polícia Civil e de outros órgãos ou estabelecimentos vinculados, e comunica a Polícia Federal e outros órgãos que possam auxiliar na localização.

Os policiais também orientam que as famílias mantenham contato com a delegacia e informem qualquer fato novo. “Geralmente, depois que a notícia do desaparecimento se espalha pelo círculo social da família, é comum que mais informações surjam. Alguém conta que viu o desaparecido comprar uma passagem para outra cidade, outro diz que lembra de ele ter falado alguma coisa, e esses dados são importantes para ajudar na investigação”, afirma o delegado.

Outros recursos usados pelos policiais para tentar rastrear o desaparecido incluem verificar a movimentação da conta bancária da pessoa ou apurar se existem atividades recentes na sua linha de telefone celular. “Esses casos mais graves, porém, não passam de 3% do total”, estima Ruiner.

PERFIL
O chefe da Polícia Civil garante que não existe um tipo específico de pessoa que tende a desaparecer com mais frequência. “Tem desde criança e adolescente até idoso”. Ele conta, porém, que cada grupo demográfico possui seus próprios motivos para sumir. “Muitos adultos possuem problemas com álcool e drogas e fogem para consumir essas substâncias, ou acabam adquirindo dívidas por conta do vício e fogem da despesa”, diz.

“Em alguns casos são pais fugindo de suas responsabilidades ou mulheres tentando escapar de uma relação abusiva”. Muitos desaparecidos também envolvem idosos, crianças ou pessoas com deficiências cognitivas. “Nesses casos, é comum que eles não saibam ou não se lembrem como voltar para casa”, diz Ruiner.

De acordo com dados divulgados pela 4ª Delegacia de Investigação sobre Pessoas Desaparecidas de São Paulo, os adolescentes fogem quando se sentem reprimidos ou controlados pelos responsáveis. “O adolescente é curioso e quer experimentar coisas novas, mas não têm maturidade para medir os riscos de algumas situações e acaba se expondo a muitos perigos”, avalia o delegado.

Ele dá alguns exemplos que costuma ver em seu dia a dia. “É muito comum que garotas adolescentes desapareçam com um namorado mais velho ou que a família não goste. Entre os meninos, o maior motivo é o uso de drogas e conflitos familiares”, diz.

No dia 13 de janeiro, duas meninas de 12 anos mentiram para os pais dizendo que iam dormir uma na casa da outra e saíram de Louveira em direção à uma casa noturna em Jundiaí. Elas foram encontradas quatro dias depois na Cracolândia, na capital paulista. Em dezembro do ano passado, uma jovem de 13 anos cabulou aula para ir ao São Camilo na casa de uma amiga sem avisar os pais e retornou no dia seguinte dizendo que foi sexualmente abusada pelo irmão mais velho da colega.

A psicóloga Karen Scavacini orienta que os pais sempre mantenham uma cultura de diálogo em casa. “É importante deixar claro que se pode conversar sobre tudo e tentar não reagir com gritos e atitudes violentas, pois isso só vai motivar os filhos a manter segredo”, diz. “Os pais precisam deixar claro que estarão lá para ajudar sempre, mesmo que fiquem bravos”.

LUTO NÃO AUTORIZADO
Em raros casos, o desaparecido some por anos ou são vítimas de desastres e acidentes cujo corpo nunca é encontrado. A situação de sofrimento dessas famílias é raramente compreendida, opina a psicóloga. “É uma situação de muita ambivalência, pois a família não quer perder as esperanças de encontrar o desaparecido, mas são obrigados a lidar com sua ausência”, diz.

Sentimentos de culpa são comuns, assim como o aumento de doenças. “O impacto é físico, emocional, social e até financeiro”, conta Karen. Muitas doenças crônicas são agravadas, problemas cardíacos surgem, depressão e ansiedade, isolamento, insônia e até desemprego. “A pessoa vive para a busca e não consegue mais seguir sua própria rotina com o trabalho e amigos”, diz.  Ela recomenda que essas famílias busquem grupos de apoio. “A sensação de solidão é muito grande e é importante compartilhar e ver que outros vivem os mesmos dilemas”.

Foto: Jornal de Jundiaí

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