Política

Briga política tem levado descrença na vacina

Falta de transparência e o não cumprimento de prazos são os principais problemas


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João Doria tem feito anúncios confusos sobre a CoronaVac
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O modo como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tem tratado os anúncios de eficácia da CorovaVac, com choque de informações e dados sempre confusos, vem alimentando o descrédito em torno da vacina contra a covid-19, o que pode ser letal à diminuição das mortes no Brasil e apoio aos desinformados do movimento antivacina. Ainda pesa o fato de Doria estar apostando o sucesso da CoronaVac como seu trampolim à candidatura à presidência do Brasil.

Desenvolvido pelo Instituto Butantan, em parceria com o laboratório chinês Sinovac, o imunizante tem uma eficácia global de 50,38%, conforme foi divulgado nesta terça-feira (12) em coletiva de imprensa. Mesmo no limite, o número é considerado dentro do padrão aceito pela comunidade científica, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sua estratégia de divulgação não tem agradado boa parte da população e vem dando ainda mais fôlego a movimentos antivacina, segundo avaliam alguns especialistas. Para a professora Deisy Ventura, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Ética e Saúde Global, o embate político em torno da vacina, incluindo o anúncio de supostas datas de início de imunização, serve apenas a anseios populistas e prejudica ações efetivas de combate à pandemia via imunização.

"O anúncio de datas tem o efeito negativo de gerar expectativas e, ao frustrá-las, desacreditar as autoridades sanitárias e empresas responsáveis quando o prazo estipulado não consegue ser cumprido", aponta.

Uma pesquisa Datafolha de dezembro mostrou que 50% da população rejeita a Coronavac, pejorativamente chamada de "vacina chinesa", enquanto imunizantes elaborados por Estados Unidos, Inglaterra e Rússia são negados por 23%, 26% e 36%, respectivamente. O número dos que pretendem participar da imunização ainda é franca maioria (73%), mas já reflete uma desconfiança crescente em torno das opções que se apresentam.

Na terça (12), após o anúncio paulista, boa parte da tropa bolsonarista, incluindo os filhos do presidente, foram às redes sociais criticar Doria e fazer ilações sobre o imunizante. O governo federal aposta desde o início no imunizante da AstraZeneca/Oxford, que será produzido no Brasil pela Fiocruz.

Para João Henrique Rafael Junior, analista de comunicação do IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP, a CoronaVac já era alvo de ataques, mas que os erros de comunicação do governo paulista jogaram ainda mais combustível nos grupos antivacinas.

"Antes do anúncio, houve uma série de adiamentos. Cada vez que a divulgação era adiada, isso incendiava os grupos e as redes antivacina. Os erros não começaram agora na comunicação da CoronaVac. Esses grupos estão atuando desde o primeiro semestre atacando as vacinas ainda em desenvolvimento. Sabíamos que quanto mais se aproximasse do final da pesquisa e do início da vacinação, mais esses grupos iriam dar as caras", disse.

Para ele, a falta de transparência dificulta o combate à desinformação. "Precisamos dos dados e de transparência para que possamos apresentar todas as informações corretas quando enfrentamos as fake news ou conversamos com o público em geral. É muito prejudicial quando as informações chegam assim, de forma fragmentada", afirmou.

Já o jornalista especializado em informação científica, Carlos Orsi, explica que a comunicação científica pode cair na armadilha de não explicar devidamente as questões e acabar prejudicando a credibilidade de uma pesquisa ou instituição.

"Se você esconde ou faz pouco caso de uma informação relevante porque tem medo que ela seja mal interpretada, sua atitude virtualmente garante que, quando ela vier a público, será mal interpretada", argumentou ele na ocasião. "No longo prazo, transparência é a única forma de sustentar credibilidade. Isto não é controverso. É um fato bem estabelecido", finaliza.

 


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