Política

Lula volta ao cenário político e polariza disputa com Bolsonaro

Eleições 2022 Com o retorno do ex-presidente petista, a briga tende a ficar ainda mais acirrada e nomes como João Doria e Ciro Gomes podem ficar de lado


Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O presidente Jair Bolsonaro reiterou que o Brasil foi um dos países que menos caiu em todo o mundo
Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recuperou os direitos políticos, pelo menos temporariamente, e essa foi a consequência mais comentada nas redes sociais e nos bastidores de Brasília com a decisão do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.

Nos bastidores do governo, a avaliação de pessoas próximas a Bolsonaro é de que seria interessante para o atual presidente, desgastado com a crise da saúde e com a aliança com partidos do Centrão, uma rivalidade direta com Lula nas eleições, encarnando o discurso utilizado com sucesso na última eleição de rival do PT, que também tem alta rejeição na sociedade.

Outra consequência da volta de Lula é de que o retorno do ex-presidente ao tabuleiro eleitoral põe para escanteio, por ora, partidos de centro - que têm planos de candidaturas - e força o governo a defender ainda mais a vacinação e o combate à pandemia como prioridade.

Ao mesmo tempo, a polarização tende a enfraquecer candidatos de centro e "menos extremistas", uma vez que eleitores de ambos os lados estarão ainda mais engajados na disputa entre os dois lados. Há quem diga que a polarização beneficiará Bolsonaro, que tem como estratégia política o confronto e o radicalismo, ao inflamar seus apoiadores mais fiéis contra os adversários vermelhos.

Mas, para o cientista político André Rosa, os desdobramentos podem ser diferentes. "A noção que se tem é que o presidente já tem um discurso pronto contra o 'lulopetismo'. Não concordo com isso. Bolsonaro pode pensar que a polarização é boa, mas do ponto de vista político, o Lula é mais competitivo do que Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT). João Doria (PSDB) ainda é uma incógnita. Dá para dizer que essa polarização é pior para a esquerda do que melhor para o Bolsonaro", avalia.

Já no caso de Ciro Gomes (PDT), que se apresenta como alternativa àqueles que se consideram de esquerda, o jogo parece ter ficado complexo. "Um fortalecimento de Lula seria péssimo para o Ciro. Ele quer se descolar dessa imagem do petismo e ao mesmo tempo driblar a direita conservadora. Agora a gente vê uma esquerda bem mais unida em torno do Lula do que do Ciro, que não apoiou Haddad no segundo turno em 2018 e gerou desconfiança", explica Rosa.

Já o cientista social Samuel Vidilli acredita que Bolsonaro agora terá de lidar com um adversário gigante eleitoralmente falando. "Lula é elegível e já acenou que não vai radicalizar, pelo contrário. Se as coisas andarem assim teremos três grandes nomes com reais intenções: Lula representando uma visão à esquerda, mas que acolhe o centro, Ciro Gomes tentando se colocar como o antipetismo, mas com agenda que acolhe esquerda e centro e Bolsonaro pode acabar representando apenas uma direita que já votaria nele", aponta.

Apontado como um dos presidenciáveis do PSDB - o outro é o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite -, o governador de São Paulo, João Doria, disse que, caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se mantenha elegível e confirme a disposição de disputar o Palácio do Planalto em 2022, o cenário eleitoral vai mudar, mas as forças de centro não serão engolidas se "tiverem juízo".

Doria não descarta até mesmo a possibilidade de o PSDB apoiar um outro nome na sucessão presidencial do ano que vem. "Nada deve ser excluído. Uma aliança pelo Brasil não pode estabelecer prerrogativas de nomes". "A polarização favorece os extremistas que destroem o País. Já destruíram uma vez e estão completando o serviço. Portanto, vejo como um impacto positivo para o centro democrático estar unido na defesa de um programa de governo que salve o Brasil dos extremistas", disse Doria.

Bolsonaro reage

Ao saber da nota, Bolsonaro afirmou que o brasileiro não quer mais o petista. "Todo mundo foi surpreendido com isso, tamanha a bandalheira que eles fizeram na administração das empresas. Eu acredito que o povo brasileiro não quer ter um candidato como esse em 2022, muito menos pensar numa possível eleição dele. Só ver a Bolsa de Valores, que nessa segunda-feira foi lá para baixo e o dólar, lá para cima. O plenário do STF vai ter que analisar isso daí. Um homem só não pode ser o senhor do destino nisso aí", disse Bolsonaro.

A decisão de Fachin também enseja outros debates, como o desfecho de vários investigados políticos da Lava Jato. O ministro é um defensor da operação no STF e o despacho sobre Lula demonstrou ser um arranjado jurídico para tentar salvar a que foi a maior operação de combate à corrupção no país, mas que perdeu crédito pelos atropelos à legislação, com contornos políticos suspeitos, conforme revelaram as trocas de mensagens entre o então juiz Sérgio Moro e integrantes do Ministério Público.


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