Política

No governo Bolsonaro, política externa volta a ser alvo de críticas

Diplomacia Ministro Ernesto Araújo é o alvo da vez e pode ser o próximo a deixar o cargo por pressão de várias frentes, entre elas o Congresso Nacional


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Ministro Ernesto Araújo pode ser realocado, como no caso Pazuello, para acalmar alguns setores que têm feito críticas ao seu trabalho
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A diplomacia e as relações externas no governo Jair Bolsonaro voltaram à pauta nesta semana após alguns acontecimentos. Entre eles, a pressão do Congresso por mudanças na forma de tratar a política externa, com críticas voltadas principalmente a Ernesto Araújo, ministro responsável por essa pasta.

A recente mudança de tom do governo Jair Bolsonaro na relação com a China, diante das dificuldades para que o país asiático liberasse os insumos para a produção de vacinas no Brasil, representa uma nova orientação na política externa brasileira, para atender a uma necessidade conjuntural. Segundo fontes da área diplomática, a atitude foi vista positivamente e trata-se de uma adaptação às circunstâncias.

"Mas essa mudança de tom não vai durar muito tempo. Em conversa reservada, eles acreditam que o discurso de Bolsonaro é apenas uma manobra temporária, influenciada também pelas pesquisas de opinião e a fritura externa de Araújo.

"Não vejo mudança do discurso de Bolsonaro como algo estratégico e refletido. Isto porque a base intelectual do governo é conservadora, de direita e acredita que os chineses são os inimigos. Essas crenças continuam presentes", afirma Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

Segundo ele, o Brasil faz uma rejeição mais ampla ao multilateralismo e tem posturas que colocam o país como parte do campo antiglobalista. "Eu diria que é a mudança mais profunda na política externa em pelo menos cem anos", completa.

Já o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel destaca que o país abandonou uma postura voltada para o multilateralismo e passou a adotar uma política externa altamente imprevisível. "Há uma incerteza em relação a o que o Brasil pensa quanto à China, Mercosul e Oriente Médio, gerando uma grande preocupação da comunidade internacional", afirma.

Para o cientista político, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é "um ministro extremamente fraco, mas mantém sua capacidade de fazer declarações absurdas e causar danos. Parece-me bastante provável que o país continue passando vergonha com frequência nos próximos anos", comenta.

Pressão do Congresso

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), voltou a cobrar do presidente Jair Bolsonaro mudanças na política externa brasileira, considerada pelo senador falha e que precisa ser corrigida para que o país tenha um Ministério de Relações Exteriores "que funcione".

Pacheco se reuniu na manhã de sexta-feira (26) com Bolsonaro, depois do primeiro encontro com governadores para tratar das demandas no âmbito do comitê nacional de enfrentamento à covid-19.

Ao final do encontro, disse ter externado novamente ao presidente a insatisfação com a política externa brasileira. O chanceler Ernesto Araújo é visto por Pacheco e pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), como um dos principais responsáveis por fracassos nas ações de combate à pandemia.

"A permanência ou a saída do ministro, de qualquer que seja ele, cabe ao presidente. O que nos cabe enquanto Senado, Câmara, enquanto Parlamento, é cobrar e fiscalizar as ações do ministério", afirmou. "E consideramos que a política externa do Brasil ainda está falha, precisa ser corrigida, é preciso melhorar a relação com os demais países, inclusive com a China, porque é o maior parceiro comercial do Brasil."

Segundo Pacheco, Bolsonaro ouviu as críticas, mas não fez comentários nem sinalizou se o ministro será mantido ou substituído. "Com ministro A ou ministro B, o que importa é um ministério que funcione."

Nesta semana, a insatisfação com a conduta de Ernesto à frente do Itamaraty ficou clara nas participações do ministro em sessões na Câmara e no Senado. O chanceler foi criticado e recebeu pouco apoio de aliados do presidente. Auxiliares de Bolsonaro dizem que a forma escolhida para pressionar pela troca de Ernesto foi agressiva e, na opinião deles, deve fazer o processo demorar mais.

Ainda de acordo com auxiliares, o presidente se irritou com o tom das críticas e em especial com declarações de Lira, que, na quarta-feira (24), chegou a falar de "remédios amargos" e "fatais" do Parlamento caso não exista, do outro lado, a "flexibilidade de ceder".


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