Política

Mobilidade urbana ainda é um desafio após um ano de pandemia

MUNICÍPIOS Transporte coletivo tem sido apontado como um dos vilões, mas pode passar por mudanças significativas e para melhor em um futuro próximo


Agência Brasil
Nas grandes cidades do mundo, o transporte público e sua utilização poderão passar por importantes transformações estruturais após a pandemia
Crédito: Agência Brasil

Países de todo o mundo sofrem impactos na mobilidade urbana causados pela pandemia do novo coronavírus. O isolamento social, pregado pelas autoridades de saúde como a melhor forma de prevenção, resultou em mudanças de hábitos da população, inclusive em relação ao uso dos meios de transporte.

No transporte público, com a diminuição no número de passageiros e a necessidade de aumento da frota para respeitar as medidas de isolamento, a mobilidade urbana é um dos grandes desafios de todo o mundo no pós-pandemia, mesmo que as recomendações ainda não estejam sendo completamente cumpridas.

Segundo o engenheiro e ex-secretário de Transporte, Lúcio Gregori, um novo modelo de contrato entre as prefeituras e as empresas de transporte poderia ser o começo de uma trágica mudança para melhor. "Quem contrata deveria determinar e pagar por número de veículos utilizados, não de passageiros, e calcular quantos ônibus são suficientes para a demanda atual. No caso da pandemia, seria possível estabelecer um número de veículos para se ter apenas passageiros sentados e evitar as aglomerações, por exemplo", comenta.

O transporte coletivo público é obrigação do poder concedente, no caso a prefeitura de cada município. É o governo municipal que define os critérios do serviço a ser prestado assim como a forma de remuneração das empresas concessionárias. Com as restrições de recursos no orçamento das cidades, o transporte coletivo recebe cada vez menos investimentos e o serviço não se paga e nem se sustenta.

Gregori também comenta sobre outros meios de transporte e alternativas aos ônibus, mas afirma que a maioria da população ainda irá precisar do transporte público. "Nem todos têm condições de bancar um motorista de aplicativo todos os dias, por exemplo. A bicicleta também é opção, mas Jundiaí é uma cidade relativamente montanhosa, o que dificulta sua utilização diária. Mesmo assim, vejo que deveríamos ter muito mais ciclovias espalhadas pelo município, para incentivar o seu uso", complementa.

Mas, segundo ele, o transporte coletivo não deve ser visto como vilão na pandemia. "Os carros parecem ser a solução, mas sabemos que existem interesses em jogo. A bicicleta como meio de transporte é um investimento público bom e barato, assim como oferecer o transporte coletivo acessível e de qualidade seria o ideal para este momento", finaliza.

Efeitos negativos

As medidas que visam dificultar a circulação de pessoas, e consequentemente do vírus na sociedade, entretanto, pode ter efeito contrário, segundo avaliação do coordenador da FGV Transportes, Marcus Quintella. Segundo o especialista, as medidas têm causado um efeito negativo no combate na propagação do coronavírus.

"Quanto mais escassez de transporte público, mais gente se aglomera, seja no próprio veículo, ônibus, trem ou metrô, ou nos pontos, plataformas e estações, podendo causar superlotação. Menos frota de ônibus nas ruas não evitará aglomerações, pelo contrário, mais pessoas estarão esperando pelo transporte. A proteção e orientação aos motoristas de ônibus são fundamentais nesse momento. Os profissionais de segurança, da saúde, de supermercados e farmácias estão em operação, não podem ser punidos. Tudo tem que ser feito de forma planejada", explica.

Quintella ainda ressalta que o passe livre, que já está bloqueado aos estudantes beneficiados, deveria ficar suspenso, para desestimular a circulação, dentre eles, dos idosos. "Tem que se criar empecilhos para o acesso aos meios de transporte público daqueles que devem ficar em casa", finaliza.

No Brasil, o transporte coletivo é responsável por 50% das viagens motorizadas. A diminuição de passageiros é grave em um país cuja matriz de transportes urbanos é bastante desequilibrada entre os modos, com a predominância do modo a pé, que corresponde a 40% dos deslocamentos nas cidades, seguido do transporte individual por automóveis, com 25%, e por ônibus, com 24%. O transporte sobre trilhos corresponde a apenas 4%, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).

Dados colhidos pelo Google por meio do histórico de localização de seus usuários que optaram por ativar o serviço ajudam a compreender como a mobilidade urbana no Brasil se modificou durante a pandemia. Em relatório referente ao dia 29 de março, em comparação com o período de 3 de janeiro a 6 de fevereiro, é possível observar o baixo deslocamento pelas cidades. No entanto, os números não são absolutos.

No Brasil, houve uma queda de 71% em locais de lazer e compras. O movimento em mercados e farmácias caiu 35%; em espaços abertos, como parques e praias, 70%, e centros de transporte público, como estações de metrô, ônibus e trem, apresentaram queda de 62%. A frequência nos locais de trabalho caiu 34%. A única categoria que cresceu foi a residencial, com um aumento de 17%.


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