Política

Gerente da Pfizer depõe sobre compra das doses pelo governo

CPI da Covid Carlos Murillo falou sobre as negociações com Bolsonaro, recusas de doses em 2020 e mudanças na legislação


Jefferson Rudy
A Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia realiza oitiva do gerente-geral da Pfizer na América Latina
Crédito: Jefferson Rudy

O gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, afirmou nesta quinta-feira (13) que a necessidade de alterar a legislação brasileira para adquirir a vacina da empresa já era tema de discussão entre as partes desde novembro de 2020.

"Isso [necessidade de alteração legislativa] foi conversado no mês de novembro, dezembro, de 2020", disse Murillo, em depoimento à CPI da Covid. "O que posso dizer é que a partir de novembro, dezembro, a gente [governo e Pfizer] discutiu a possibilidade de essa autorização legislativa."

A venda da vacina para o Brasil só foi efetivada em março deste ano, após aprovação de projeto de lei de iniciativa do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). O governo Jair Bolsonaro sempre apontou que as cláusulas impostas pela Pfizer impediam a compra da vacina, por se chocar com as leis brasileiras.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu só no dia 23 de fevereiro o registro definitivo à vacina contra a covid-19 desenvolvida pela Pfizer em parceria com a empresa de biotecnologia alemã BioNtech.

Murillo disse ainda que a empresa fez em 2020 ao Brasil ao menos cinco ofertas de doses de vacinas contra o coronavírus e que o governo ignorou proposta para comprar 70 milhões de unidades do imunizante.

Murillo disse à comissão que, se o contrato com a empresa tivesse sido assinado pelo governo federal em agosto do ano passado, o Brasil teria disponíveis 18,5 milhões de doses da vacina até o segundo trimestre deste ano.

O Ministério da Saúde só firmou acordo com o laboratório em março deste ano, em que adquiriu 100 milhões de doses, das quais 14 milhões devem ser entregues neste segundo trimestre, e os 86 milhões restantes, no terceiro trimestre.

As falas do representante da Pfizer confirmam o que foi dito um dia antes na comissão pelo ex-secretário Fábio Wajngarten (Comunicação), segundo o qual o Brasil deixou parada a negociação com o laboratório durante dois meses.

Em oitiva na CPI, o representante da Pfizer construiu uma linha do tempo. Segundo ele, após ter iniciado as conversas com o Brasil em maio, a primeira oferta ocorreu em 14 de agosto.

Depois, o laboratório fez mais duas ofertas, em 18 de agosto e 26 de agosto. Nas três foram feitas propostas separadas de entregas de dois quantitativos: 30 e 70 milhões de doses para entrega parcelada até o final de dezembro de 2021.

"A proposta de 26 de agosto tinha validade de 15 dias. Passados 15 dias, o governo não rejeitou e nem aceitou a oferta."

As duas ofertas previam que ao menos 1,5 milhão de doses chegariam ao Brasil em dezembro de 2020. Como a oferta foi ignorada, segundo Murillo, em novembro as negociações foram retomadas com mais duas propostas.

Desta vez, só estava na mesa a possibilidade de compra de 70 milhões de doses e não havia mais a chance de alguma vacina da Pfizer chegar ainda em 2020. O Brasil receberia 8,5 milhões de doses nos dois primeiros trimestres.


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