Política

Milhares de manifestantes vão às ruas no Peru contra a candidatura de Keiko Fujimori

As manifestações, convocadas por grupos de direitos humanos e anticorrupção, aconteceram em várias cidades do Peru


Nestor Soto Maldonado
Keiko Fujimori
Crédito: Nestor Soto Maldonado

Milhares de pessoas se manifestaram no sábado (22) em várias cidades do Peru em rejeição à candidatura presidencial de Keiko Fujimori, 45, em passeatas convocadas por grupos de direitos humanos e anticorrupção. Faltam 15 dias para a votação em que ela enfrentará o sindicalista Pedro Castillo, 51.

Sob o lema "Pelo Peru Keiko não vai", em Lima a marcha foi realizada pacificamente com milhares de pessoas usando máscaras e agitando faixas com slogans contra a candidata e seu pai, ex-ditador Alberto Fujimori, que esteve no poder de 1990 a 2000.

A marcha começou à tarde na Plaza San Martín, epicentro dos protestos do país, e percorreu o centro histórico da cidade até antes do toque de recolher, em vigor às 21h devido à pandemia de coronavírus.

Os familiares das vítimas de violações dos direitos humanos durante o governo de Alberto Fujimori estavam na primeira fila. Também compareceram centenas de jovens que consideram o fujimorismo parte de uma classe política corrupta, que incendiou o país nas últimas três décadas.

"Fujimori nunca mais! É por isso que vim marchar, pela dignidade, pelo meu futuro, pelo futuro dos meus filhos, pelo futuro das outras gerações, é por isso que venho marchar, porque me sinto indignado com tanta corrupção, por tantas décadas sendo roubado e saqueado ", disse à AFP um manifestante que se identificou como Roberto.

Keiko, que concorre à Presidência pela terceira vez, lidera o Força Popular, partido fujimorista que ajudou a derrubar o hoje ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, movimento que deu início à crise política no país: o presidente do país, o interino Francisco Sagasti, é o quarto do atual mandato.

PPK, como Kuczynski é conhecido, renunciou em 2016. Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 após enfrentar dois processos de impeachment, também sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo a continuidade no cargo. Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional.

No primeiro turno, Keiko obteve 13,4% dos votos, atrás de Castillo, com 18,9%. Para o segundo turno, marcado para 6 de junho, é ele quem leva vantagem, segundo as últimas pesquisas de intenção de voto.

Um levantamento publicado neste domingo (23) indica que 44,8% dos entrevistados pretendem votar em Castillo; para Keiko, a parcela é de 34%.

A sondagem foi realizada pelo Instituto de Estudos do Peru (IEP) a pedido do jornal La Republica com 1.208 pessoas nos dias 20 e 21 de maio e teve uma margem de erro de 2,8 pontos percentuais. A pesquisa também indicou que 13% pretendem votar em branco ou anular seu voto em 6 de junho.

Castillo, que havia começado a cair nas pesquisas no início do mês, ganhou terreno significativo desde a mesma pesquisa do IEP em meados de maio, na qual obteve 36,5% das intenções de voto, e Keiko, 29,6%.

Ela é bacharel em administração de empresas pela Universidade de Boston e é casada com um americano, com quem tem duas filhas. Em 2018, Keiko foi presa, acusada de lavagem de dinheiro e de recebimento de caixa dois da empreiteira brasileira Odebrecht. No ano seguinte, obteve um habeas corpus, mas o processo ainda não foi concluído.

Diferentemente das eleições de 2011 e de 2016, nas quais chegou ao segundo turno, mas acabou derrotada, desta vez Keiko não fez gestos de reconciliação ou pedidos de desculpas pelos abusos de direitos humanos cometidos pelo pai para amenizar a rejeição a seu nome. Em ambas as ocasiões, ela reforçou não estar de acordo com os excessos do período de Fujimori no poder e afirmou que não daria indultos a pessoas processadas ou presas por eles -como o próprio pai.

Já Castillo é uma surpresa para muitos. Durante a transmissão dos primeiros resultados do primeiro turno, a CNN em espanhol sequer tinha uma foto dele para exibir. O candidato se mostrou ao mundo de modo pitoresco, indo votar montado em um cavalo, em Cajamarca, na região andina.

Sindicalista e professor do ensino médio, ele ficou conhecido nacionalmente ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017. Candidato da aliança Perú Libre, ele defende maiores salários aos empregados do setor da educação. Tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 -segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.


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