Política

Pazuello negociou Coronavac com empresa intermediária

Ministério A proposta oferecida foi de US 28 por dose, valor três vezes maior que o contratado pelo Instituto Butantan


Marcelo Camargo/Agência Brasil
Pazuello se reuniu com representantes de empresa para negociar a venda de doses da vacina Coronavac
Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello negociou a compra de doses da vacina Coronavac com intermediários enquanto ainda chefiava a pasta da Saúde, de acordo com vídeo divulgado na tarde de ontem (16).

A reunião aconteceu fora da agenda oficial do então ministro, no dia 11 de março de 2021, dias antes de sua exoneração. Nas imagens, Pazuello aparece ao lado de quatro pessoas e afirma que buscava a possibilidade de negociar 30 milhões de doses da vacina "no mais curto prazo possível". "Saímos daqui hoje com o memorando de entendimento assinado", afirmou o ministro.

A proposta oferecida ao ministro era de US$ 28 por dose da vacina. O valor, no entanto, é quase três vezes maior do que o contrato com o Instituto Butantan, que já estava firmado pelo governo brasileiro desde janeiro.

Um dos vendedores, identificado como "John" por Pazuello, agradece a recepção do ex-ministro e afirma que outras parcerias poderiam ser realizadas no futuro "com tanta porta aberta que o ministro propôs". O vídeo da reunião, revelado pelo jornal Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (16), consta entre as documentações entregues à CPI da Pandemia.

A proposta da empresa tem data do dia 10 de março, véspera da reunião com Pazuello. Segundo dois auxiliares do ex-ministro e um dos empresários que acompanharam a conversa, a oferta só chegou à pasta no dia do encontro.

No Brasil, a Coronavac é produzida e distribuída ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) pelo Instituto Butantan, que desenvolveu a vacina em parceria com o laboratório chinês Sinovac Biotech.

Em nota, o Instituto Butantan afirmou que não possui um posicionamento sobre o assunto e que desconhece qualquer relação com a World Brands, a empresa intermediária em questão, além de recomendar que a reportagem buscasse a Sinovac.

Além da discrepância no preço, o encontro fora da agenda contradiz o que Pazuello afirmou em depoimento à CPI da Covid, em 19 de maio. Aos senadores o general disse que não liderou as negociações com a Pfizer sob o argumento de que um ministro jamais deve receber ou negociar com uma empresa.

"Pela simples razão de que eu sou o dirigente máximo, eu sou o 'decisor', eu não posso negociar com a empresa. Quem negocia com a empresa é o nível administrativo, não o ministro. Se o ministro... Jamais deve receber uma empresa, o senhor [senador Renan Calheiros] deveria saber disso", disse Pazuello à CPI.

Segundo um ex-auxiliar do ministro, a ideia era propagandear nas redes sociais o avanço em uma negociação, no momento em que o governo era pressionado a ampliar o portfólio de vacinas. Um dos assessores de Pazuello teria alertado o general após a reunião de que a proposta era incomum, acima do preço, e a empresa poderia não ser representante oficial da fabricante da vacina.

Caso o negócio fosse adiante, as doses seriam as mais caras contratadas pelo ministério, posto hoje ocupado pela indiana Covaxin (US$ 15), que tem o contrato suspenso por suspeitas de irregularidades.


Notícias relevantes: