Política

Clima e crise afegã aquecem final de eleição na Alemanha

A menos de um mês do pleito, um sobe-desce de intenções de voto deixou em empate técnico três partidos: os conservadores cristãos da União, os sociais-democratas e os Verdes


Leandro Neumann Ciuffo/Creative Commons
Parlamento Alemão, Reichstag
Crédito: Leandro Neumann Ciuffo/Creative Commons

Catástrofes climáticas e a crise no Afeganistão vão esquentar ainda mais a já embolada eleição para suceder Angela Merkel, que há 16 anos governa a Alemanha.

A menos de um mês do pleito, um sobe-desce de intenções de voto deixou em empate técnico três partidos: os conservadores cristãos da União (CDU-CSU), os sociais-democratas (SPD) e os Verdes.

Em jogo estão políticas energéticas e industriais da principal potência europeia, cujo PIB em 2020 se aproxima de US$ 4 trilhões (R$ 21 tri, pelo câmbio atual), quinta maior economia do mundo, de acordo com cálculos do Banco Mundial que relativizam o poder de compra para permitir comparações (PPP).

A "eleição de maior consequência global neste ano", nas palavras do presidente da consultoria de risco político Eurasia, Ian Bremmer, também define rumos geopolíticos, tema no qual o colunista da Folha é um dos principais analistas.

A Alemanha tem peso preponderante, ao lado da França, em decisões europeias sobre estratégias de defesa e relações com a Rússia e com a China -mais relevantes num momento em que o apoio militar e político dos EUA deixou de ser líquido e certo.

"O rápido acúmulo de crises graves -Covid, alerta de mudanças climáticas irreversíveis feito pela ONU e Afeganistão- coloca ainda mais em evidência a importância das qualidades de liderança dos candidatos nesta eleição", diz Ursula Münch, diretora da Academia de Educação Política de Tutzing.

As pesquisas eleitorais refletiram isso após as enchentes que mataram ao menos 177 no oeste do país em julho.

Em tese, seria uma oportunidade eleitoral para os Verdes, os mais identificados com a proteção ambiental, mas também para a União: o candidato dos conservadores a premiê, Armin Laschet, 60, governa a Renânia do Norte-Vestfália, o estado alemão mais atingido pelas inundações.

Seria a chance perfeita de mostrar capacidade de liderança, mas Laschet "cometeu todos os erros concebíveis", aponta Christian Odendahl, economista-chefe do Center for European Reform.

"Ele ignorou avisos de enchentes e viajou ao sul para fazer campanha. Não percebeu que a gravidade da situação exigia uma força-tarefa estatal e mudou três vezes em 24 horas sua opinião sobre se a política climática deveria ser alterada", afirma Odendahl em análise para o centro de estudos. Para completar, foi filmado rindo em cerimônia de homenagem às vítimas, vídeo que correu a internet.

A somatória de erros fez a União despencar de 29% das intenções de voto para 23% na média das pesquisas, tombo que favoreceu não os Verdes –cuja estratégia foi baixar o tom para evitar acusações de oportunismo–, mas os sociais-democratas do SPD.

Estagnado perto de 15% da preferência do eleitorado havia mais de um ano, o partido de centro-esquerda saltou em semanas para 22% –a margem de erro fica entre 2 e 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos–, projetando seu candidato, o ministro da Finanças, Olaf Scholz, 62.

Ex-prefeito de Hamburgo de 2011 a 2018 e ministro desde então, ele já explorava a experiência em seu lema de campanha "Scholz packt das an" (algo como "Scholz resolve") e "parece estar fazendo tudo certo no momento", diz a cientista política Ursula Münch.

"Ele deu a impressão de um ouvinte sensato e montou um programa de auxílio. Isso promoveu muito sua imagem como administrador de crises", afirma a professora.

Se os alemães escolhessem diretamente seu primeiro-ministro, a vantagem atual de Scholz seria expressiva: preferem o ministro 30% dos eleitores, o dobro dos 15% de Annalena Baerbock, 40, candidata dos Verdes, que empata tecnicamente com Laschet (12%).

Mas não é por esse caminho que as eleições levam à escolha do premiê (cargo que, na Alemanha, é chamado de chanceler). O chefe de governo é eleito pelo Bundestag (Câmara Baixa, equivalente à Câmara dos Deputados) e precisa conquistar mais da metade dos deputados eleitos.

Essa forma indireta de escolha do premiê contrabalança a tendência de falta de apego a partidos e faz com que, na Alemanha, o filtro mais importante ainda seja "a afinidade com os programas ou a rejeição a eles", diz Münch.

Essas posições ficarão cada vez mais evidentes na reta final da eleição, marcada para 26 de setembro: até lá vão ao ar na TV quatro debates com os principais candidatos, um deles neste domingo (29).

O ponto de maior atrito é o combate às mudanças climáticas, não por sua necessidade –defendida por todos os partidos alemães exceto a ultradireitista AfD–, mas pela forma e velocidade com que as políticas energética e industrial terão se ser revistas.

"Trata-se da disputa sobre quão fortemente a política climática deve intervir nos estilos de vida e na economia", diz Münch. É por isso que a prioridade dada ao ambiente não se traduz diretamente em votos para os Verdes, partido que ainda não se livrou completamente da imagem de radical do passado, quando queria proibir voos de curta distância e decretar um "dia semanal sem carne".

Os Verdes amadureceram o discurso e duplicaram seu apoio no eleitorado desde a última eleição, o que os fez lançar pela primeira vez um candidato a premiê.

Mas a defesa de uma redução mais rápida nas emissões de gás carbônico abre o flanco para ataques dos rivais, que, em discursos diretos e campanhas apócrifas, afirmam que um governo dos Verdes trará desemprego e carestia.

O partido ambientalista não nega que a mudança tem custos, mas propôs em resposta às críticas uma reforma tributária para "redistribuí-los".

Além do clima, a campanha eleitoral deve sofrer impacto do colapso político no Afeganistão. Na última semana, chegaram ao país mais de 5.000 afegãos, famílias e funcionários do governo alemão ou de organizações humanitárias, mas centenas de alemães e outros cerca de 5.000 afegãos não conseguiram ainda deixar o país em crise.

Parte da queda recente da União nas pesquisas se deve a declarações de seu candidato a premiê também sobre o avanço do Talibã, diz o presidente do instituto de pesquisas Forsa, Manfred Güllner.

Laschet declarou que "situações como a de 2015" deveriam ser evitadas, renegando a política adotada por Merkel e apoiada por ele na ocasião.

"A imagem de Armin Laschet é cada vez mais calamitosa. Em todos os assuntos importantes, ele dá a impressão de não ter ideias claras, de se contradizer", afirmou Güllner ao jornal francês Le Monde.

Há também o risco de que ultradireitistas ressuscitem o medo de uma suposta nova onda de refugiados como a que se viu em 2015 e 2016.

A situação em 2021 é muito diferente da de seis anos atrás, e esse tema é citado como prioritário por 10% dos eleitores, mas "é importante ficar atento a seus efeitos simbólicos e seu uso em narrativas enganosas", escreveram os analistas alemães Tobias Heidland, professor de economia na Universidade de Kiel, e Jasper Tjaden, professor de pesquisa social aplicada em Potsdam, no Politico.


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