Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Cientista político analisa corrida eleitoral: ‘Lula lidera por seus feitos e pelos defeitos dos adversários’

CARLOS SANTIAGO | 23/08/2018 | 05:00

“Lula é uma ‘entidade’. Ele é o único estadista vivo do Brasil”. Esta frase encerra o pensamento do cientista político Paulo Silvino e dá bem a medida de alguns dos motivos que fazem com que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareça em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para a presidência. Pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha mostra Lula com 39% da preferência do eleitorado.

Lula completará 73 anos em outubro, está preso após ser condenado a 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro. Preso, é considerado inelegível – mas o Partido dos Trabalhadores não desiste e segue lutando na Justiça para ter o seu líder como candidato. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve julgar o caso na primeira semana de setembro.

Mesmo com todos estes fatores, as pesquisas seguem indicando que boa parte do país quer reconduzir Lula ao poder. Por quê?
Para Paulo Silvino, doutor em Sociologia pela Unicamp e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), é a memória positiva presente na cabeça do brasileiro uma das razões desta “liderança”. “Lula comandou um período de crescimento, de estabilidade econômica, permitiu ou ampliou oportunidades de consumo”, opina Silvino. O cientista político, no entanto, adiciona outros ingredientes que também ajudam a dar o “sabor” deste cardápio pré-eleitoral – ingredientes que atendem pela definição de “adversários”.

Sopa de adversários
“As qualidades de Lula se somam aos defeitos de seus concorrentes”, crava Silvino. Assim, para o sociólogo, Jair Bolsonaro (PSL, com 19%) é “radical e desequilibrado”; Marina Silva (Rede, 8% das intenções de voto) “mostra-se ambígua e sem posicionamento”; Geraldo Alckmin (PSDB, com 6% na pesquisa Datafolha de ontem) “não tem expressividade fora de São Paulo e mostra dificuldades de somar votos”; e o quinto colocado na corrida à presidência, Ciro Gomes (PDT, com 5%) “é verborrágico, calcado no pragmatismo”.

Silvino volta a evocar a questão da memória, no entanto, para lembrar a outra face da moeda: assim como Lula é amado, ele também sofre de uma alta rejeição. “Na verdade, as pessoas preferem apenas lembrar aquilo que foi bom, esquecendo de aspectos como o custo econômico, as alianças e o fisiologismo político”, prossegue Silvino.

Lula e Getúlio
Ele, em seguida, lembra que Lula vive, de certa forma, situação muito semelhante à de Getúlio Vargas, nos anos 1940. “Getúlio saiu em 1945 para voltar nos braços do povo cinco anos depois. Lula governou oito anos, emplacou a sucessora, tiveram problemas de corrupção – que não é uma invenção deles nem do PT. Foi condenado”…

Como se fora um cadáver insepulto, o fantasma de Lula segue aterrorizando os adversários – e até mesmo recebendo apoio do Exterior. “Afinal, Lula elevou a estima nacional e ditou um novo rumo em nossas relações internacionais”, lembra Silvino.

Democracia avança
O cientista político comenta, ainda, que a própria construção da democracia, “processo que é permanente”, também é, em parte, “responsável” pela candidatura e pelos números apresentados por Jair Bolsonaro (que, nos cenários sem Lula, lidera as pesquisas). “A nossa democracia é algo que está em permanente evolução. A candidatura – e os números apresentados por Jair Bolsonaro – só comprovam que a democracia existe, segue avançando – mas também tem custos”.

Esquerda falhou
Paulo Silvino, por fim, apresenta outros motivos que justificam o avanço da candidatura de Bolsonaro. “A esquerda mundial falhou e abriu o caminho para um certo conservadorismo”.

Foto: Jornal de Jundiaí

Foto: Jornal de Jundiaí


Link original: https://www.jj.com.br/politica/cientista-politico-analisa-corrida-eleitoral-lula-lidera-por-seus-feitos-e-pelos-defeitos-dos-adversarios/
Desenvolvido por CIJUN