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Corte de bolsas de pesquisa é considerado um “tombo”

SOLANGE POLI | 11/05/2019 | 05:02

O governo federal anunciou nesta semana um novo corte no orçamento da Educação. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) decidiu suspender a concessão de bolsas de mestrado e doutorado. A decisão impede que novos candidatos recebam bolsas que tinham verba já liberadas e previstas para 2019. Segundo a Capes, o bloqueio não atinge estudantes cujos mestrados e doutorados estão em andamento. O corte deverá provocar, na visão de educadores e pesquisadores, uma defasagem na estrutura educacional superior do País. “É uma política desastrosa, a gente tem que investir no futuro, na educação, na formação das pessoas. Infelizmente não vemos o governo com uma preocupação nesse sentido. É uma catástrofe para a pós-graduação e para a formação dos brasileiros”, avalia Rafael Alcadipani, doutor em Administração e professor-adjunto da FGV-SP.

Para o geólogo Rafael Rodrigues de Assis, professor doutor do Instituto de Geociências da USP, esse anúncio representa um tombo muito grande. “O fato principal é que com esse corte orçamentário ocorreu o congelamento das bolsas, que consequentemente não serão disponibilizadas para novos alunos, o que compromete a pesquisa científica brasileira. O governo vê como gastos que precisam ser cortados, sendo que as contas públicas deveriam ser ajustadas por outros princípios, como enxugar a burocracia administrativa nos setores legislativo, judiciário e executivo do País”, afirma o professor, que sente-se diretamente afetado.

Segundo ele, o corte vai impactar negativamente na educação, no avanço da ciência e da tecnologia em todas as áreas e na sociedade como um todo. “Todos os professores terão menos alunos com bolsas de mestrado e doutorado, como eu por exemplo”, alerta o professor. A decisão do governo, portanto, compromete a formação de profissionais qualificados, com a evasão de cursos de pós-graduação, já que os alunos não terão mais o incentivo para desenvolver os projetos de pesquisa.

A grande maioria dos programas e projetos é pensada para resolver demandas sociais e essas bolsas são engajadas em todas as áreas de pesquisas, como Humanas, Exatas e Biológicas, entre outras. Outra consequência desastrosa será a redução na qualidade e quantidade de produtos técnicos e científicos nos País, já que não haverá demanda para os programas.

Sem a formação de profissionais gabaritados, a tendência é que muitos vejam-se estimulados a mudar para outros países, reforçando o fenômeno de “fuga de cérebros”, sem que possam retribuir para a sociedade brasileira a formação técnica que possuem e poderiam aprimorar, porque aqui não encontram incentivo e base para exercer e desenvolver suas pesquisas. Tira-se do Brasil, na análise do professor doutor, a oportunidade de ser um mercado cada vez mais promissor nas áreas de ciências e tecnologia, para passar a depender do conhecimentos de outros países, sendo obrigado a “importar” o que tem todas as condições de produzir aqui.

O novo corte para a educação superior no País pegou os gestores das instituições federais de surpresa e se soma ao anúncio de “contingenciamento” de 30% nas verbas para as universidades, anunciado pelo ministro Abraham Weintraub na semana passada.

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