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Prostituição à espera de regulamentação

CARLOS SANTIAGO | 16/09/2018 | 10:02

A região central de Jundiaí ganha outra visão quando o Sol se põe. Mulheres entre 20 a 60 anos começam a chegar. A pé, depois de desembarcar de ônibus nas proximidades, elas têm uma coisa em comum: usam roupas curtas, decotes profundos, batons de cores berrantes – artifícios que ajudam a atrair a clientela.

Não há uma estatística oficial mas, pelas contas de Cristina Castilho (que já ajudou muitas delas a deixarem a prostituição), podem chegar a 30 mulheres se espalhando pelas ruas do Centro. Cristina lembra, ainda, que há prostituição nos bares e nas ruas próximas aos pontos de tráfico.

Em alguns casos, as meninas e mulheres que vão para a prostituição são dependentes químicas que buscam dinheiro justamente para satisfazer o vício. No Centro (principalmente no entorno da Praça Governador Pedro de Toledo), há mulheres com mais de 60 anos. Observadora, Cristina Castilho conta que nas periferias, pelo que se pode perceber, estão as garotas de 20 a 30 anos. Com mais de três décadas trabalhando para tirar as mulheres da rua e dar dignidade às ‘profissionais do sexo’, ela conhece bem a realidade da grande maioria. “São jovens, adultas ou até mesmo idosas, que foram abusadas sexualmente na infância ou na adolescência, dentro de casa ou em seu entorno. Ou, então, são mulheres que cresceram em meio à promiscuidade sexual, com a mãe trocando de parceiros ou o pai trocando de parceiras”, avalia.

Há, ainda, outra variação de perfil de quem parte para a prostituição: o vício das drogas. “Nesse caso, são meninas que, na escola, raramente, ultrapassam o sétimo ano. Com a estima baixa, são facilmente atraídas para o comércio do sexo”, prossegue Cristina.
Além das ruas, há, ainda, as ‘casas de massagem’. “Nesse caso, parece que o perfil é de atrair jovens com lar desestruturado e que têm grande necessidade de consumismo”, diz.

Para Mariana Janeiro, que integra um grupo de feministas, é fato que o Brasil tem um forte comércio sexual – também fortalecido pela grande presença de transexuais e travestis. Ela lembra: “Em 2010, o governo espanhol divulgou uma nota afirmando que 80% das prostitutas que atuavam por lá um ano antes eram nascidas no Brasil”.

Mariana entra no debate relativo ao PL Gabriela Leite, de autoria do deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ). Trata-se do projeto de lei 4l211/2.012, que leva o nome de uma prostituta da Boca do Lixo, em São Paulo, criadora da grife Daspu, e que lutou pela regulamentação da profissão. “É sempre um problema por que até que ponto é empoderador oferecer o corpo como mercadoria”, questiona.

O projeto de lei está parado no Congresso. Se aprovado, entre outros benefícios, as prostitutas teriam carteira assinada, contribuiriam com o INSS e teriam direito a aposentadoria. Se o Brasil pensa em regulamentar, a Espanha debate a proibição da prostituição. Cris Castilho se diz contra a regulamentação da profissão. “Em muitos casos, prostituir-se foi algo imposto. Essas mulheres precisam do direito sagrado ao livre arbítrio.” Mariana concorda.


 


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