Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Tendência de voto branco e nulo caiu com polarização

FOLHAPRESS | 07/10/2018 | 23:19

A conversão do descontentamento em voto útil fez com que a fatia de brasileiros que foi às urnas sem optar por nenhum dos candidatos à Presidência ficasse muito abaixo do que indicavam as pesquisas de preferência eleitoral há menos de dois meses.
Do total de votos computados neste domingo (7) pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 6,12% foram nulos e 2,66% brancos, com 98% das urnas apuradas. A soma de 8,78% dos chamados votos inválidos ficou abaixo dos 9,64% registrados no primeiro turno do pleito de 2014 e muito próxima dos resultados de 2006 e 2010.

“Os votos brancos e nulos no primeiro turno mantiveram o padrão de estabilidade que temos observado desde 2006”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, professor da UFRJ. Embora tenha repetido a tendência dos últimos dez anos, o comportamento dos eleitores que pretendiam invalidar seu voto se alterou significativamente à medida que a data do pleito foi se aproximando. Segundo o Datafolha, por volta de 20 de agosto, as intenções de voto apontavam para um percentual de 22% de votos brancos e nulos. Essa parcela era quase o triplo do máximo registrado na mesma altura da corrida presidencial nas últimas décadas.

Entre 1989 e 2014, a soma de brancos e nulos em pesquisas feitas em meados de agosto indicaram um mínimo de 3%, em 1998, e um máximo de 8%, no penúltimo pleito, de acordo com a série histórica do Datafolha. A leitura de especialistas era de que o desencanto com a política tradicional alimentava uma onda inédita de voto de protesto, que se refletia na vontade de punir os candidatos à Presidência, não escolhendo nenhum deles. Esse movimento parecia resultado da crise política dos últimos anos, na esteira de eventos como os escândalos de corrupção escancarados pela Operação Lava Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e a posterior crise na qual mergulhou o governo Michel Temer (MDB).

“As pesquisas captavam um sentimento de grande descontentamento e alienação no contexto de um sistema político extremamente corrupto”, diz o cientista político David Fleischer, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília). Essa situação começou a mudar, principalmente, a partir da oficialização da candidatura de Fernando Haddad (PT), em 11 de setembro, depois de esgotadas as tentativas de lançamento da candidatura do ex-presidente Lula. A indicação de que o ex-prefeito de São Paulo poderia herdar fatia significativa dos votos de Lula começou a impulsionar uma onda de voto útil antipetista em Jair Bolsonaro (PSL).

“O Bolsonaro, de certa maneira, capturou a enorme insatisfação com tudo o que representa a política tradicional”, afirma Nicolau. Segundo o cientista político, confirmam esse diagnóstico o bom desempenho de muitos políticos do PSL de Bolsonaro para o Legislativo e de candidatos que anunciaram apoio ao capitão reformado. Com a configuração de uma enorme polarização, eleitores descontentes com a política, mas que rejeitam Bolsonaro, também parecem ter desistido de invalidar o voto, aderindo a alguma candidatura.

A pesquisa Datafolha divulgada no sábado (6) já indicava um total de votos brancos e nulos de 6%, um pouco abaixo do registrado pelo TSE. “A polarização muito aguda fez com que parte dos que votaria branco ou nulo acabasse optando por Haddad ou Bolsonaro na tentativa de evitar o que considerassem um mal maior”, diz Fleischer. De acordo com o cientista político, o fato de que candidatos mais identificados com o centro do espectro político não decolaram também contribuiu para esse cenário.

Nicolau lembra que uma parcela dos votos brancos e nulos é consequência do manejo errado da urna eletrônica pelo eleitor e não de uma manifestação de protesto. Mas esse problema foi maior no passado, logo após a introdução da novidade no país. Em 1998, na primeira eleição presidencial com o uso de urna eletrônica, a fatia de votos inválidos somou 18,7% no primeiro turno. A parcela de eleitores que decidiu não comparecer às urnas neste domingo somou 20,3%. Trata-se de um percentual próximo ao das votações em anos anteriores, de acordo com especialistas.

Foto: reprodução/internet

Foto: reprodução/internet


Link original: https://www.jj.com.br/politica/tendencia-de-voto-branco-e-nulo-caiu-com-polarizacao/
Desenvolvido por CIJUN